

Rodney
Ênio Lima de Andrade
David de Medeiros Leite
Rodney de Renato, Rodney de Lizete, Rodney de Ilnara, Rodney dos
irmãos, Rodney dos amigos, Rodney da medicina, Rodney torcedor
do Fluminense, Rodney das infantis brincadeiras na Avenida Rio Branco,
Rodney dos carnavais em Tibau, Rodney da clínica oftalmológica...
Quando pensei em escrever algo sobre você, Rodney, confesso
que fiquei em dúvida em relação à qual
dessas características deveria realçar. No entanto,
logo percebi que falando sobre quaisquer de suas facetas, terminaria
por delinear-lhe o perfil, pois sempre foi de fácil percepção
a inconfundível marca que lhe perpassou a vida, ou seja,
a plenitude com que você vivia cada sentimento.
Lembro-me bem, Rodney, de uma semana que Vilani e eu passamos no
Rio de Janeiro, quando você ali cursava residência médica.
Como estávamos de férias, Vilani, um tanto preocupada,
comentava que não podíamos abusar de sua solicitude,
e isso lhe poderia atrapalhar a rotina acadêmica. Eu a tranquilizava
dizendo da certeza de que a imersão do Rodney residente nas
atividades era equivalente e proporcional à intensidade de
sua benevolência e presteza, quando estava nos ciceroneando.
Naqueles dias, em nossos roteiros, percorrendo os típicos
recantos cariocas, lembro-me que você, sorrindo, ou quase,
seguia explicando detalhadamente os principais aspectos geográficos
da Cidade Maravilhosa. E tampouco esqueço que, ao passarmos
pelo bar "Garota de Ipanema", eu falei que não
havia necessidade de pararmos, pois nos bastava vê-lo de passagem.
Infalível foi seu contra-argumento de que de nada adiantaria
passar em frente ao lendário bar sem parar para conhecê-lo
nos detalhes internos. Da mesma forma, em Vila Isabel, onde você
fez questão de também estacionar o carro para passearmos
pelas calçadas onde estão gravados acordes de Noel
Rosa, já que você sabia do meu interesse. Aliás,
algum tempo depois, ao cometer o poema "Cenas Cariocas"
- constante de nosso livro Incerto Caminhar -, canhestramente registrei
algo em relação àquele momento.
Rodney, como foi valioso você ter vivido intensamente cada
momento de sua vida... Extremado filho, seu carinho e preocupação
com seus pais, Lizete e Renato, emocionava. Seu amor por Ilnara,
saltava aos olhos. Do zelo para com seus pequenos filhos, nem se
fale. E com seus amigos? Ah, Rodney, qualquer um de nós,
ao ser saudado por você, sentia que sua festa conosco nunca
era "da boca pra fora". Além de perguntar por esposa,
filhos e familiares, você também demonstrava real interesse
pelo que estávamos fazendo na vida profissional, essas coisas.
Palavras e gestos característicos dos que regam amizades,
com o mesmo esmero de quem cuida de um belo pomar.
No entanto, Rodney, sexta-feira passada, como se fosse um soco no
estômago, recebi a notícia de que você havia
partido. Tomado de tristeza, tentei direcionar meu pensamento para
você vivo, ágil, intercalando a sisudez da consulta
médica com algo de pitoresco de nossa Mossoró. A cada
retorno a seu consultório, ao ouvir-lhe o diagnóstico
de aumento de meu grau, eu reclamava em tom de blague: "é
a velhice chegando...". E você, invariavelmente, reagia
amenizando: "Que isso, homem? Somos quase da mesma idade..."
Rodney, sabemos não existir palavras que sirvam de bálsamo
para amenizar a dor que dilacera o coração dos seus,
que ficam. Qualquer argumento ou gesto, mesmo aceito e entendido
como manifestação de amizade, infelizmente pouco adiantará.
Consciente disso, faço este singelo comentário apenas
como forma de registrar, para seus filhos, a lição
por você legada, e que somente consigo definir valendo-me
de Fernando Pessoa: "Para ser grande, sê inteiro".
Saudades, Rodney.
David de Medeiros Leite
davidmleite@hotmail.com.
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