Domingo, 17 de junho de 2018

Postado às 08h15 | 12 Mar 2018 | Ex-vice-reitor da Uern é preciso em artigo sobre greve dos docentes

Manifestante da Uern carrega o cartaz "Governador a culpa é sua" em protesto aos salários atrasados

O artigo de opinião do professor doutor Aécio Cândido, na edição impressa do JORNAL DE FATO, merece leitura.

O ex-vice-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com rara precisão, disseca sobre a greve dos professores e os prejuízos à instituição e à sociedade.

Com o título: “Sobre a corda em casa de enforcado”, ele escreve:

“Paulo Mendes Campos, escritor mineiro injustamente pouco lembrado hoje em dia, retorcendo um provérbio português, definia o verbo viver com certa rudeza, mas com muita precisão. Dizia ele: “Viver é falar de corda em casa de enforcado”. É mesmo. E algumas vezes com o corpo do defunto ainda quente na sala.

​Eu não pensava tratar, neste espaço, de temas políticos e polêmicos. Por índole e por formação, prefiro assuntos mais amenos. Mas vem a vida e se impõe, lembrando que viver é… isso que já foi dito. Tratemos, pois, de um assunto incômodo: a greve da Uern, que já dura mais de 120 dias.

​Antônio Capistrano, que foi reitor, o primeiro da Estadualização, deputado estadual e vice-prefeito de Mossoró, um amante incondicional da UERN, publicou domingo passado, em sua página do Facebook, algumas interrogações em relação à greve.

Para que não me tachem de reacionário sem analisar o que escrevi, começo afirmando que não concebo uma democracia madura sem a existência de sindicatos fortes e sem o direito de greve plenamente respeitado.

Se o direito é líquido e certo, o uso dele pode ser questionado. Mas muita gente encara a greve como um dogma, como algo inquestionável; justa, por princípio; oportuna, sempre; única como arma eficaz. O dogma na politica é tão nefasto quanto na religião.

​Há uma ética da greve, como há uma ética da guerra. E, como seres morais, somos obrigados a pensar nela. A guerra é moralmente defensável em algumas situações. Violação do território nacional é uma delas. Em qualquer situação, ela é o recurso último, depois de esgotados todos os canais diplomáticos.

A greve também, dado seus custos sociais, é um recurso último. Há gente que a vê como primeiro recurso. E participa dela com indisfarçável alegria. O que dizer de um soldado que vai para a guerra dando pulinhos de contentamento? É um sádico, seu prazer é matar, tudo o mais é disfarce. A reverência dogmática à greve banalizou-a. O preço da banalização é a falta de eco social: “De muito usada, a faca já não corta”, lembra o verso de Chico Buarque.

​A banalização é consequência de uma visão política que conta com muitos adeptos empenhados. A visão é esta: grande desconfiança em relação à democracia representativa e crença apaixonada pelas supostas virtudes da democracia direta. Nesta, a boa justiça é aquela feita diretamente pelos interessados. Infelizmente, essas soluções estão muito mais próximas do fascismo do que comumente supomos. A multidão, convicta de que sua razão é a melhor e a mais justa, é mestra em promover atrocidades. Desde a libertação de Barrabás.

​Mas há pontos mais concretos a serem lembrados. No setor privado, o efeito da greve é direto: ela causa prejuízos financeiros ao patrão. No serviço público, de quem são os prejuízos? Do usuário do serviço, única e exclusivamente; no Brasil, equivale a dizer: dos mais pobres. Só eles dependem dos serviços públicos: do ônibus, do posto de saúde, da escola, da polícia.

A classe média, ainda que tirando da goela, tem carro, plano de saúde, escola particular e cada vez mais se protege nos condomínios fechados, para não se abalar em demasia com a falta de segurança geral. A elite econômica, a elite política e a alta burocracia do Estado vivem em outro mundo, não têm muita ideia de como funciona o andar de baixo. Não é, portanto, atingida por nenhum rebuliço que ocorra nesse nível.

​Os políticos, responsáveis pelo bem público, se não são atingidos diretamente, sê-lo-ão (desculpem, saiu sem querer) indiretamente. É o que se pensa. O prejuízo para eles virá na forma de corrosão do capital eleitoral. A população os responsabilizará e os punirá com o desprezo nas urnas. É questionável. Há muita coisa no longo percurso desse raciocínio que precisa ser levada em conta.

A sociedade, como um todo, está cansada de greves. A reação conservadora, atirando para todo lado, é expressão desse cansaço.

As alianças, absolutamente necessárias para que a categoria não desapareça no gueto, precisariam ser estabelecidas a partir de outras plataformas. A greve, decididamente, não é uma dessas plataformas. E cá entre nós: um governo com 85% de desaprovação tem o que mais para se desgastar? E certamente não está desgastado pela greve da Uern, está desgastado porque é caótico, descoordenado, inoperante, omisso. Caótico: o governo não sabe quanto gasta com Segurança, não sabe quantos presos existem no sistema carcerário, não tem controle sobre o número de professores que adoecem todo ano, é incapaz de prever quando vai entregar uma obra, etc., etc., etc. (No entanto, a cabeça dessa gente é um desafio para psicólogos e psiquiatras: com todo esse legado, o governador ainda pensa em reeleição. É caso pra internação compulsória).

Quais os objetivos da greve? A regularização do calendário de pagamento. É possível? Não, não enquanto a conjuntura econômica não mudar. E muito apertadamente enquanto o Legislativo e o Judiciário forem tratados como poderes de um Estado marciano, distante, diferente e indiferente aos outros segmentos, e não como partes de um Estado potiguar. Há uma crise nas finanças públicas, isso é real. Por quais razões se chegou a ela é outra discussão. Mas há gente que não acredita. Só posso lamentar.

​Os custos de uma greve são muito altos. O Blog de Carlos Santos calcula em 424 dias sem aula o resultado das 4 greves dos dois últimos governos: Rosalba Ciarlini e Robinson Farias. E o pior é que elas são previsíveis: são 4 em 7 anos.

Um jovem que planeje minimamente a sua vida estudantil fugirá da UERN. É o que está acontecendo. Nos últimos 4 anos, tenho encontrado jovens que moram nos Pintos, no terreiro de duas universidades públicas, mas que preferem se deslocar 5 km para frequentar uma universidade particular, com todos os custos financeiros que a opção implica. A razão: lá não tem greve e ele quer terminar logo para poder participar de concursos. É um desejo legítimo, não?

A Uern não é mais a única instituição a oferecer os cursos da área de Humanas, como foi durante mais de 30 anos. Os estudantes têm outras opções e fazem uso delas. Não posso afirmar categoricamente que a sobra de vagas no Sistema de Seleção Unificada (SISU) tenha uma relação estreita com esta questão, mas é pelo menos uma variável que merece ser considerada. As lideranças sindicais acham uma relação absurda e não a consideram, nem mesmo como hipótese.

​Acho meio cínico o argumento oferecido aos alunos para conquista do apoio às greves: “Nossa greve está dando a vocês a oportunidade de praticar uma lição de cidadania”. Nós deixamos nossos filhos na escola privada, longe dessa lição.

​Durante muitas décadas, Detroit foi uma cidade florescente. Era a capital do automóvel, a maior parte da indústria automobilística americana estava lá. A conjunção de políticos populistas com lideranças sindicais míopes destruiu a cidade.

Em 2013 a prefeitura decretou falência. Detroit é uma sombra do que foi: teve 2 milhões de habitantes nos anos 1950, hoje tem apenas 700 mil.

​Uma greve longa e sem rumo não acaba com o governo, mas pode acabar com a Instituição.

NOTA DO BLOG: Perfeito, professor.

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AUTOR

César Santos é jornalista desde 1982. Nasceu em Janduís (RN), em 1964. Trabalhou nas rádios AM Difusora e Libertadora (repórter esportivo e de economia), jornais O Mossoroense (editor de política no final dos anos 1980) e Gazeta do Oeste (editor-chefe e diretor de redação entre os anos 1991 e 2000) e Jornal de Fato (apartir dos anos 2000), além de comentarista da Rádio FM Santa Clara - 105,1 (de 2003 a 2011). É fundador e diretor presidente da Santos Editora de Jornais Ltda., do Jornal de Fato, Revista Contexto e do portal www.defato.com.

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