Terça-Feira, 23 de abril de 2019

Postado às 11h15 | 10 Fev 2019 | João Paulo: Eleições presidenciais de 2019 na América Latina

Crédito da foto: Reprodução O povo venezuelano foi para as ruas contra o governo Maduro

(*) João Paulo Jales dos Santos

Mensalinho, filho-senador envolto em fortes suspeitas de corrupção, fortes indícios de ligações com milícias cariocas, funcionários fantasmas, gabinete ministerial composto por uma maioria de gente tosca e envolvida em casos antiéticos de todas as naturezas, trapalhadas de comunicação e de ordem burocrática, o início de governo Bolsonaro, com um mês de trabalho encerrado, é gerador de desastres incomensuráveis. Mas o que esperar de uma direita reacionária e sem nenhuma aptidão política e administrativa? O resultado até aqui, portanto, não surpreende.

A “nova” direita levou à Presidência em 2018, juntamente com importantes governos estaduais. Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, são importantes entes federativos, tanto politicamente quanto economicamente, e que serão uma espécie de vitrine, junto com a Presidência, dos resultados executivos que serão gerados pelos mandatos da direita emergente. Se triunfarem, o que não é provável, conseguirão dar credibilidade aos trabalhos desenvolvidos, perante a opinião pública. Se confirmarem o que se intui, o desastre administrativo e financeiro, servirá de exemplo, nos próximos anos, de como se comporta a extrema direita à frente de máquinas executivas.

Se o passivo político da “nova direita” se confirmar, quem ganha é a esquerda, bem como, a centro-direita, o PSDB, que poderá voltar a ter o comando dos rumos direitista, perdido de lavada, nas eleições do ano passado. No campo da esquerda, o petismo, aos poucos, vai aglutinando em torno de si, a parte da esquerda que gostaria de se desvincular do alto comando lulista.

O PT mostra, que mesmo enfraquecido após a derrota de Haddad, é a força atrativa que dirige os rumos da esquerda brasileira.  Já a tarefa do tucanato, de reconstruir seu poderio político na direita, é um processo mais problemático do que a reconstrução da imagem petista perante a opinião pública. O PT tem seu próprio eleitorado cativo de esquerda, só disputando espaços com o bolsonarismo entre o eleitorado médio que oscilou de Dilma, há quatro anos, para Bolsonaro, em 2018. Para o PSDB, que disputa diretamente o poder de influência na direta com Bolsonaro, a dependência do insucesso do capitão-presidente, é muito maior do que para o petismo.

Nos Estados Unidos, o outsider Donald Trump, perdeu a batalha delirante para a construção do muro na fronteira com o México. Nancy Pelosi, a sempre atacada líder democrata e agora presidente da Câmara dos Deputados, mostrou ao inapto Trump, o que é ser líder, o que é ter experiência na política tradicional, onde as virtudes do tradicionalismo político são fundamentais para manter saudável o cotiadiano administrativo de um governo.

Por ora, o acordo que retoma os serviços do federal, durará só algumas semanas, e Trump voltará a ter que negociar com Nancy e com o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, quando o prazo se esgotar, e o governo precisar definir o orçamento do presente ano fiscal.

Mesmo quando recentemente tinha a seu serviço as maiorias republicanas na Câmara e no Senado, Trump, intransigente crítico de Obama, fez mais usos, comparando seu período de 1º mandato com o de Obama, do que seu antecessor nas ordens administrativas do que se convém chamar, nos Estados Unidos, de poderes da Presidência. Ordens que Obama teve que começar a fazer uso quando do momento que os democratas perderam em 2010 o comando da Câmara dos Deputados.

A beligerância Trumpista, misturada com as intransigências governamental e política, podem facilmente fazer com que os republicanos sofram uma profunda derrota nas eleições do próximo ano.

O campo de batalha presidencial e senatorial nos estados indecisos, e mesmo em alguns daqueles tradicionalmente republicanos, começa a sinalizar com melhores perspectivas para os democratas.  A manutenção inconsequente do modo de fazer política de Trump, é a consequente possível derrota republicana no pleito do ano vindouro.

2019, é um ano de calendário eleitoral importante na América latina. Na Argentina, o aprofundamento da crise social e econômica pode abrir maiores chances da esquerda voltar ao comando da Casa Rosada. Mesmo divido em dois polos, o peronismo amealha um considerável bom termômetro eleitoral para possivelmente vencer a presidencial que ocorrerá nos últimos meses do ano.

Se o governo Macri, outrora vitrine latino-americana da direita, vem produzindo desagradáveis efeitos econômicos, o mesmo não se pode dizer do governo de Evo Morales. A Bolívia, a despeito da recessão que tomou de conta do Brasil, principal parceiro comercial do país no continente americano, e da crise das commodities, mantém um invejável crescimento na região, que faz com que o país tenha crescido há uma média anual de 5% em quase 10 anos. A Bolívia vai para eleição geral neste 2019, com um Evo desgastado, mas com chances credíveis de conquistar um quarto mandato.

No Uruguai, que ao lado do Chile, são países referências em estabilidade institucional na América Latina, o cenário é parecido com o da Bolívia, com uma economia em crescimento, o presidente Tabaré Vázquez, têm boas chances de ser reeleito, mas os desgastes políticos acumulados, soam como um alerta na Frente Ampla uruguaia.

As crises que assolam a Venezuela e a Nicarágua, afetam a identidade da esquerda continental latina, com resolutividades, por ora, apontando para uma continuidade de instabilidade nos dois países. Se Nicolás Maduro está fragilizado na Venezuela, na Nicarágua, a situação de Daniel Ortega é um pouco mais cômoda. Enquanto que o bolivarianismo venezuelano e o sandinismo nicaraguense trazem dores de cabeça para a esquerda, há enormes perspectivas em torno do mandato de López Obrador no México, que deu a esquerda do país a 1ª oportunidade de chegar à Presidência.

Após duas tentativas frustradas, uma em que perdeu por muito pouco em 2006, Obrador teve uma vitória maiúscula no ano passado, e com o desafio político que corresponde a grandeza das expectativas em torno de seu mandato, num país socialmente instável, com altos índices de criminalidade, e uma sociedade clamando por melhorias sociais e econômicas, depois de uma Presidência impopular de Peña Nieto.

Em Cuba, a esquerda aguarda o desenrolar da reforma constitucional, sob os comandos de Raúl Castro e do atual presidente, Miguel Díaz-Canel.

Na direita, o holofote está voltado para a volta de Sebastián Piñera ao Palácio de La Moneda, único presidente de direita a vencer eleições no Chile desde o fim da ditadura de Pinochet. Após a redemocratização, o país teve sua 1ª eleição presidencial em 1993, de lá para cá, durante 20 anos, o Chile foi governado por uma coalização de centro-esquerda que reformou moderadamente o modelo econômico e social implantado nos 17 anos da ditadura de Pinochet.

Mesmo não sendo um país tão observado pela esquerda latino-americana, o surgimento de uma nova coalização esquerdista, representada em 2017 pela candidatura presidencial de Beatriz Sánchez, é um dos fatos políticos mais observados no Chile, pois a depender dos rumos políticos, a Frente Ampla chilena pode vir a disputar espaços com o establishment de esquerda.

Na Colômbia, outro holofote da direita, Iván Duque, no rescaldo popular da contrariedade do acordo de paz firmado entre o governo colombiano e as FARC, é a volta do uribismo à Presidência. A moderada gestão centrista de Juan Manuel Santos, que entregou bons resultados econômicos e elevou a importância diplomática internacional do país, não agradou uma população acostumada com o acirramento político-ideológico. Mesmo tendo perdido para Duque, a candidatura esquerdista de Gustavo Petro teve uma razoável votação de cerca de 8 milhões de votos, um número considerável, num país onde a esquerda ainda é malvista por boa parte da sociedade. As esperanças, para a esquerda colombiana, é de que nos próximos pleitos, sua performance possa melhorar ainda mais nas urnas.

Com a queda de Pedro Pablo Kuczynski no Peru, país que na ditadura de Alberto Fujimori passou por um ajuste liberal parecido com o que Pinochet implementou no Chile, o país assiste a batalha dos irmãos Fujimori sob a influência da direita ‘fujimorista’, ao passo que acompanha uma razoável estabilidade institucional, a despeito da renúncia de Kuczynski. No Peru, o anseio popular é de melhor qualidade social de vida, num país economicamente equilibrado, mas que deixou ao largo a qualidade dos serviços públicos.

No Paraguai, a estreita vitória de Mario Abdo Benítez em abril de 2018, vencendo o opositor Efraín Alegre muito por conta do imenso controle que o partido Colorado exerce sob os diferentes níveis hierárquicos de governos, testará se os cinco anos de governo Colorado de Benítez, que assume a Presidência após o desgaste popular do mandato de Horacio Cartes, manterá sob medida o crescimento econômico paraguaio que já perdura 15 anos ininterruptos, numa economia que segue milimetricamente os princípios liberais, mas que apesar da diminuição da pobreza na última década, ainda faz com que o Paraguai tenha um terço de sua população vivendo na pobreza, no 2º país mais pobre da América do Sul, que só caiu para esta posição no ranking, devido ao surto de pobreza que eclodiu na Venezuela, consequência dos desmandos econômicos do bolivarianismo de Nicolás Maduro.

O governo Bolsonaro, é o novo depósito de confiança da direita latino-americana, depois de anos de domínio da esquerda na região. Com Bolsonaro, o establishment direitista espera uma nova vitrine para suas políticas, depois dos resultados indesejados do mandato de Maurício Macri. Se conseguir implantar medidas e reformas econômicas e sociais liberalizantes, Bolsonaro terá conquistado a simpatia da direita do continente, mesmo que seu governo venha adiante a colher os frutos impopulares que Macri colhe no momento.

Em 2019, as eleições presidenciais e gerais da Bolívia, Argentina e do Uruguai, serão os focos centrais da esquerda e da direita latino-americana. Como no horizonte se enxerga uma continuidade da esquerda na Bolívia e no Uruguai, é na Argentina que a preocupação é maior nos dois polos de poder. Uma reeleição de Macri ou de alguma candidatura de centro-direita, já que há uma possibilidade, ainda que remota, de Macri não concorrer, é um alívio para a direita. Já a esquerda, espera voltar a Casa Rosada, no lastro da impopularidade de Macri, para começar a sonhar com um novo domínio esquerdista na região nos próximos anos.

Após a derrota da extrema direita na presidencial do ano passado na Costa Rica, com o candidato de centro-esquerda, Carlos Alvarado, ganhando com três quintos dos votos no 2º turno, depois da euforia em torno do nome do fundamentalista Fabricio Alvarado, neste domingo, 3, se inicia a largada das eleições presidenciais latino-americanas em El Salvador, que mesmo sendo um país de pouca relevância regional, atraiu a atenção da imprensa porque o candidato  que se vende como outsider, Nayib Bukele, pode vencer já no 1º turno, e derrotar de uma única vez os dois principais partidos do país, o direitista ARENA e o esquerdista FMLN.

Bukele tem experiencia político-administrativa, já tendo sido prefeito da capital San Salvador, mas como teve uma atuação política identificada pela população como independente e as margens do establishment, sua candidatura é vista como sendo a de um político não tradicional. Caso Bukele venha de fato a vencer nesta pequena nação do triangulo norte da América Central, sua vitória confirma que o fenômeno do outsider é de escala global, num momento em que os partidos políticos estabelecidos e seus líderes sofrem fortes desgastes com as consequências das diferentes crises neoliberais.   

(*) João Paulo Jales dos Santos. Estudante do curso de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

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AUTOR

César Santos é jornalista desde 1982. Nasceu em Janduís (RN), em 1964. Trabalhou nas rádios AM Difusora e Libertadora (repórter esportivo e de economia), jornais O Mossoroense (editor de política no final dos anos 1980) e Gazeta do Oeste (editor-chefe e diretor de redação entre os anos 1991 e 2000) e Jornal de Fato (apartir dos anos 2000), além de comentarista da Rádio FM Santa Clara - 105,1 (de 2003 a 2011). É fundador e diretor presidente da Santos Editora de Jornais Ltda., do Jornal de Fato, Revista Contexto e do portal www.defato.com.

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