

SAMBUDO
Toda de tardezinha sentava-se na ponta do trapiche, as pernas para
fora, o cachimbo no canto da boca, e foi como se fosse a primeira
vez que viu a lua em ondulações suaves na superfície
das águas. Tomou-se de um espanto sentimental, um não
sei quê de sofrido sobressalto interior. E ficou a dizer-se
coisas, os olhos repousados na grande lua líquida, trêmula
de vento.
Chegara ali na salina João da Rocha ainda menino, seus onze
anos, vindo do sertão fugido de casa, e ficou servindo emprego
de ajudante de cozinheiro. Nunca mais voltara à terra natal,
nem dera notícias suas. Homem de uma brutalidade desmedida,
o pai dava-lhe surras de arrancar o couro das costas, algumas vezes
de urtiga. A mãe não era menos malvada. Cruel, mesmo.
Mas sentiu-lhes saudade, uma vontade de ir ao encontro deles, ainda
estariam vivos? De qualquer forma, o castigo paterno guarda um princípio
de sabedoria, uma semente de amor, não era justo abandoná-los
de uma vez para sempre, já era tempo de voltar em visita
à casa paterna. No entanto, o medo de sabê-los mortos;
seria motivo de um remorso. Olhou em volta, se ninguém o
visse, e chorou feito criança.
Na superfície das águas de verde escuro do rio João
da Rocha, mesmo nome da salina, a lua como que brincava de elástico
com o vento dentro dágua. Vezes dava a impressão de
requebros sensuais de dançarina de cassino. Senão
quando, uma garça, em voo quase rente, passou-lhe sobre a
cabeça no rumo do mangue no outro lado do rio, e Sambudo,
como era apelidado entre os salineiros, pensou se tivesse asas.
Uma saudade afundando-lhe o peito. O pai, depois da ceia, descansando
a canseira do dia de enxada no roçado, cantando modinhas
ao embalo da rede no alpendre, os olhos parados na lua por detrás
dos angicos. A mãe, na sala da frente, sentada no chão
de barro batido, almofada entre as pernas, fazendo renda à
luz da lamparina. Enfim, a vida lá no sertão, farta
e feliz, se o ano era bom de inverno. Os banhos no açude.
A noite; de repente o verde escuro do rio se mudou em prata nova,
e Sambudo ali na ponta do trapiche, o cachimbo apagado no canto
da boca, as pernas dormentes da posição. Foi que teve
a impressão de ver, no clarão descampado na curva
do rio, que o escuro do mangue aumentava por contraste, o vulto
da saudade, sem esperança, dos seus pais, procurando-o pelos
confins do mundo, com os olhos serenos de luar.
|