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MOSSORÓ (RN), SEXTA-FEIRA, 03/09/2010 (ATUALIZADO: 23:44hs)
 
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SAMBUDO
Toda de tardezinha sentava-se na ponta do trapiche, as pernas para fora, o cachimbo no canto da boca, e foi como se fosse a primeira vez que viu a lua em ondulações suaves na superfície das águas. Tomou-se de um espanto sentimental, um não sei quê de sofrido sobressalto interior. E ficou a dizer-se coisas, os olhos repousados na grande lua líquida, trêmula de vento.
Chegara ali na salina João da Rocha ainda menino, seus onze anos, vindo do sertão fugido de casa, e ficou servindo emprego de ajudante de cozinheiro. Nunca mais voltara à terra natal, nem dera notícias suas. Homem de uma brutalidade desmedida, o pai dava-lhe surras de arrancar o couro das costas, algumas vezes de urtiga. A mãe não era menos malvada. Cruel, mesmo.
Mas sentiu-lhes saudade, uma vontade de ir ao encontro deles, ainda estariam vivos? De qualquer forma, o castigo paterno guarda um princípio de sabedoria, uma semente de amor, não era justo abandoná-los de uma vez para sempre, já era tempo de voltar em visita à casa paterna. No entanto, o medo de sabê-los mortos; seria motivo de um remorso. Olhou em volta, se ninguém o visse, e chorou feito criança.
Na superfície das águas de verde escuro do rio João da Rocha, mesmo nome da salina, a lua como que brincava de elástico com o vento dentro dágua. Vezes dava a impressão de requebros sensuais de dançarina de cassino. Senão quando, uma garça, em voo quase rente, passou-lhe sobre a cabeça no rumo do mangue no outro lado do rio, e Sambudo, como era apelidado entre os salineiros, pensou se tivesse asas.
Uma saudade afundando-lhe o peito. O pai, depois da ceia, descansando a canseira do dia de enxada no roçado, cantando modinhas ao embalo da rede no alpendre, os olhos parados na lua por detrás dos angicos. A mãe, na sala da frente, sentada no chão de barro batido, almofada entre as pernas, fazendo renda à luz da lamparina. Enfim, a vida lá no sertão, farta e feliz, se o ano era bom de inverno. Os banhos no açude.
A noite; de repente o verde escuro do rio se mudou em prata nova, e Sambudo ali na ponta do trapiche, o cachimbo apagado no canto da boca, as pernas dormentes da posição. Foi que teve a impressão de ver, no clarão descampado na curva do rio, que o escuro do mangue aumentava por contraste, o vulto da saudade, sem esperança, dos seus pais, procurando-o pelos confins do mundo, com os olhos serenos de luar.



       


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