Segunda-Feira, 19 de novembro de 2018

Postado às 09h00 | 10 Set 2018 | Redação Abandono: Museus precários ou fechados para reforma

Crédito da foto: Divulgação Museus de Martins guardam importante acervo histórico

Fabiano Souza/Da Redação

Enquanto na maioria dos países os museus são vistos como espaços que despertam curiosidade e ampliam o conhecimento de seus visitantes e recebem toda a atenção das autoridades e classe política e verdadeiras escolas e centros de pesquisas científicas, já que são locais dedicados à propagação do saber por meio de suas peças, obras e elementos que integram seus acervos, por aqui a história dos museus se perde em meio a outros interesses e ao longo dos anos. O que deveria ser o nosso maior tesouro, acaba se transformando em pó, em cinzas, em nada.

A recente tragédia ocorrida pelo incêndio no último domingo (2) com o Museu Nacional no Rio de Janeiro que transformou em poucas horas 200 anos de história em um amontoado de entulhos e cinzas reflete bem o descaso do Brasil com a preservação de sua história.

A reportagem do JORNAL DE FATO fez um levantamento sobre a atual realidade dos museus existentes no Rio Grande do Norte, e embora não exista nenhum registro oficial sobre o número exato, os cerca de 15 que conseguimos contactar, sendo 11 deles administrados pelo Governo do Estado, através da Fundação José Augusto, e os demais por Prefeituras ou particulares, mostram que por aqui a situação não foge da regra do que ocorre no restante do país.

A maioria se encontra em reforma, ou fechado por falta de investimentos. Os que se encontram aberto foram recentemente reformados ou funcionam em condições precárias.

De acordo com os dados da Fundação José Augusto, que tem como diretor Amaury Júnior, 11 museus são de responsabilidade da fundação. Desses, apenas dois estão com as obras concluídas. Alguns estão fechados ou as obras foram iniciadas há mais de cinco anos. O Memorial Câmara Cascudo, fechado em 2012, passou seis anos fechado por risco de incêndio ou desabamentos.

Para garantir o funcionamento adequado desses equipamentos culturais do Estado, estão sendo investidos mais de R$ 15 milhões em obras. A previsão para a entrega desses espaços é o primeiro semestre de 2019.

Segundo Amaury Júnior, a situação dos museus é a seguinte: implantação do Museu da Rampa e do Memorial do Aviador (Natal); requalificação das praças do Centro Histórico (Natal); Memorial Câmara Cascudo (Natal); revitalização do Forte dos Reis Magos (Natal); reforma do Teatro Alberto Maranhão (Natal); reforma da Escola de Dança do Teatro Maranhão (EDTAM/Natal); reforma da Pinacoteca do Estado (Natal); reforma do Teatro Lauro Monte (Mossoró); reforma do Teatro Adjuto Dias (Caicó); reforma do Museu Café Filho; reforma da Biblioteca Câmara Cascudo.

“Todas essas são as obras estão em andamento. Com exceção do Memorial Câmara Cascudo e Museu Café Filho, já foram entregues. Todos os museus mantidos pelo Estado foram restaurados no atual governo através do programa Governo Cidadão e todos seguem um rigoroso protocolo de segurança, conforme normas dos órgãos de controle. E estamos incluindo no Orçamento as manutenções desses itens para que possamos preservar a nossa história”, disse Amaury Júnior.

 

Diretor da FJA diz que é preciso mais investimento para preservar a cultura potiguar

 

O diretor da Fundação José Augusto, Amaury Júnior, lamentou o que ocorreu no Museu Nacional do Rio de Janeiro, instituição fundada por dom João VI em 1818 e que possuía o quinto maior acervo do mundo, com mais de 20 milhões de peças.

“Lamento profundamente o incêndio ocorrido no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Não somente deixou em ruínas um conjunto arquitetônico declarado patrimônio nacional, mas também destruiu 200 anos de história, milhões de peças e documentos históricos pertencentes ao seu acervo, que estavam entre os mais representativos da história brasileira, de relevância mundial e de valor inestimável. Trata-se, portanto, de uma perda irreparável, que está sendo lamentada por todos que se preocupam com a cultura e a memória brasileira”, disse o diretor da Fundação José Augusto.

Segundo ele, esse episódio alerta para problemas decorrentes da escassez de recursos que aflige vários equipamentos culturais pelo país. A educação e a cultura têm ficado em segundo plano e precisa-se repensar isso com urgência. “No RN, a FJA atualmente está com várias obras em andamento e essa preocupação tem sido constante de todos nós que estamos no Governo. Nenhuma obra está sendo entregue sem um rigoroso plano de segurança e combate a incêndio como determinam as normas e os órgãos de controle. Precisamos preservar nossa cultura e nossa história”, alerta.

 

Museus de Martins guardam importante acervo histórico

 

Se na capital do Rio Grande do Norte a situação dos museus é complicada, imagine no interior do estado. Os principais museus localizados no interior do RN estão nas cidades de Mossoró, com o Museu Lauro Monte (veja texto na revista DOMINGO), Martins, Acari e Caicó.

O Museu Cultural Coronel Demétrio Lemos destaca-se de modo especial pelo seu rico acervo doado pelo seu patrono, adquirido com recursos próprios no Rio de Janeiro e doado ao Grupo Escolar Dr. Almino Afonso, que criou sala especial com a denominação de "Museu Cultural Demétrio Lemos" pelo rico acervo cultural formado por estátuas em “art nouveau”, móveis artisticamente decorados, biblioteca com mais de mil volumes, dos quais se destacam: a versão original de "O Inferno" de Dante Alighiére, "Orlando Furioso" de Ariosto e "Os Lusíadas" de Luiz Vaz de Camões, preciosidade pelo seu valor histórico, vez que o volume foi dedicado de próprio punho pelo editor português Emílio Biel a D. Pedro II, imperador do Brasil. Mesmo com rico acervo, o museu funciona em condições precárias, numa escola pública que já foi arrombada por vândalos que danificaram algumas obras.

A cidade ainda possui o Museu Histórico de Martins, criado a 20 de dezembro de 1955 pelo Instituto Histórico e Cultural de Martins, como parte de suas metas. Funciona no Edifício "Pax" desde a sua criação e ocupa 4 salas: uma com exposição de objetos de arte sacra, duas com móveis e louças do século atrasado e uma com biblioteca jurídica e galeria fotográfica, onde se expõem fotos de filhos ilustres de Martins e do estado. A beleza arquitetônica do prédio secular que abriga o museu e que data do ano de 1871 e está passando por sua primeira reforma desde a construção. Segundo a assessoria de comunicação da Prefeitura de Martins, toda a madeira do teto, telhas e madeira do assoalho estão sendo trocadas. Não existe previsão para a reabertura do museu.

 

Museu particular Júnior Marcelo se mantém sem apoio de recursos públicos

Outro importante equipamento do gênero na cidade é o museu particular Júnior Marcelino, que pertence ao historiador/colecionador, que com muito afinco e dedicação desenvolve um importantíssimo trabalho de resgatar a história através de fotos, objetos antigos, fósseis de animais pré-históricos, entre outros objetos.

Júnior Marcelo lamenta a falta de interesse da classe política em apoiar a preservação cultural. “Temos um importante acervo histórico e cultural em nossa cidade, mas falta apoio político para que todo esse material não fique perdido ou destruído, como ocorreu no Museu Nacional do Rio de Janeiros. Políticos só pensam no que pode representar votos, e não veem o investimento em cultura como meio para obter votos”, disse.

Segundo ele, seu museu é preservado por ele e uma sobrinha que fazem todo o trabalho, sem qualquer apoio da iniciativa pública. “Estamos planejando uma reforma para melhorar as condições de preservação do nosso acervo. Mas tudo com recursos próprios. Não recebemos apoio político porque não podemos assegurar retorno de votos. Então, temos que seguir até quando for possível dentro das nossas forças”, disse Júnior Marcelino.

 

Museu Histórico de Martins preserva cultura nordestina

O Museu Histórico de Acari, também conhecido como Museu do Sertanejo, é localizado no centro da cidade e recebe visitantes, pesquisadores e estudantes de Acari e de outras localidades.

O museu foi construído em 1887 para abrigar a força pública, a cadeia, e a intendência de Acari. O antigo paço e cadeia foi tombado pelo Iphan em 16 de junho de 1964 e restaurado em 1980 e transformou-se em um museu em 1990. Desde então, divulgam a história das duas mais antigas principais fontes econômicas do município: a criação de gado e o cultivo do algodão.

Agora, totalmente reformado, os bens que compõem o acervo do museu foram doados em 1990, pela comunidade urbana e rural. Em seu acervo se destacam o artesanato, a moradia rural, utensílios domésticos, de trabalho, armas, instrumentos musicais entre outros, que representam os costumes do homem sertanejo e sua história.

O museu do sertanejo é um dos mais expressivos celeiros culturais do Nordeste brasileiro e pode ser considerado o maior patrimônio histórico de Acari, pois é memorável, ele oferece ao povo com seus bens um legado que no caso seria a carga cultural da cidade contada pelo museu. Quando o visitante entra no museu, ele logo percebe o que os organizadores do acervo querem passar, ou seja, a preservação das crenças e costumes peculiares do homem seridoense.

Além de ser classificado também como patrimônio cultural, conta a história através de seus costumes, suas comidas típicas e crenças.

A arte pode se manifestar na casa de taipa dentro do museu que representa a vida dos sertanejos no passado.

Na região do Seridó, outro importante local de preservação histórica e cultural é o Museu do Seridó, fechado desde 2011, para reforma na estrutura do prédio, e a recuperação do acervo. O museu funciona no prédio do antigo Senado da Câmara e Cadeia Pública da Vila do Príncipe, foi construído em arquitetura colonial e é tombado pelo patrimônio público.

O acervo contempla as coleções de arte sacra (imagens e objetos de culto cristão); tecnologia tradicional (engenhos de rapadura, farinha, tecelagem e bordados) e arqueológica (machados de pedra); movelaria (móveis domésticos); utensílios domésticos (louça e cerâmica); instrumentos de trabalho no pastoreio (roupa de vaqueiro, ferros de marcar gado, selas); e armas (brancas e de fogo).

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