Sábado, 18 de novembro de 2017

Postado às 09h45 | 25 Set 2017 | Redação Cerca de 400 famílias em Mossoró podem perder casas por inadimplência

Crédito da foto: Divulgação O motivo é o atraso no pagamento das parcelas do Minha Casa,Minha Vida

O sonho da casa própria pode se tornar um pesadelo para centenas de famílias mossoroenses. É que a Caixa Econômica Federal pode retomar cerca de 400 imóveis até o fim do ano. O motivo é o atraso no pagamento das parcelas do financiamento do programa Minha Casa Minha Vida.

O gerente geral da Caixa Econômica Federal em Mossoró, Julierme Torres, informa que somente na agência em que ele gerencia, a maior da cidade, cerca de 200 processos de retomada de casas poderão ser concluídos até o final de dezembro. Muitos outros processos já estão em andamento nas outras três agências do banco no município.

Entre os motivos apontados para tamanha inadimplência, Julierme Torres elenca a crise econômica e a cultura popular. “Muita gente acha que, por se tratar de um banco público, não haverá a cobrança devida. Além disso, Mossoró passou por uma transformação na economia com a desaceleração dos investimentos da Petrobras”, justifica.

Para quem acha que o Governo vai cobrir a sua dívida, um alerta: se o mutuário não negociar o débito, a Caixa Econômica Federal inicia o processo de retomada do imóvel.

O processo leva meses e é feito por fases. Primeiro, o banco notifica, depois o cartório procura o mutuário para notificar, que tem prazo de 15 dias para regularizar a situação. Caso o atraso permaneça, a Caixa leva o imóvel a leilão.

Julierme Torres orienta que o banco deve ser procurado antes mesmo de começar a inadimplência.

“Se a família perdeu renda e tem a expectativa de não conseguir pagar o financiamento, deve procurar logo o banco, pois a Caixa tem inúmeras alternativas, como a possibilidade de uso do FGTS para pagamento das parcelas, diluição das parcelas em atraso nas parcelas restantes e, até, a utilização do Fundo Garantidor para amortizar parcelas em atraso”, elenca.

Julierme alerta que diversos imóveis já foram retomados e estão à disposição para venda.

Quem tem a casa retomada, perde tudo o que pagou. A única possibilidade de devolução é se a Caixa vender o imóvel por valor superior à dívida deixada.

Mesmo em meio à inadimplência, há esperança de recuperação do setor. O gerente da Caixa informa que vários contratos estão sendo assinados para a construção de novos empreendimentos.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de Mossoró, Francisco Neves Brito, reconhece que a indústria da construção está parada, “mas com expectativa de melhora futura”.

O corretor de móveis Rodrigues Neto espera por esse novo momento, mas já vem adotando há meses as suas próprias medidas para vender mais.

Números positivos no setor já são sentidos há alguns meses, graças a promoções e facilidade para pagamento da entrada e, até mesmo, venda de imóveis sem qualquer pagamento inicial.

A forma de atrair clientes é baixar e, até, zerar a entrada, destaca a corretora Albete Magna.

Numa das promoções divulgadas nas redes sociais, a corretora promete R$ 1.000,00 em espécie e mais uma central de ar para a família que comprar um dos imóveis de um determinado conjunto residencial financiado pelo Minha Casa Minha Vida.

Em outros casos, a facilidade é dividir a entrada em 100 vezes, tudo para impedir o encalhamento dos imóveis.

Despesas inesperadas levam ao atraso do Minha Casa Minha Vida, diz estudo                                        

Pesquisa do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizada no município de Santa Maria (RS) apontou os motivos que levam ao endividamento com o programa Minha Casa Minha Vida e o perfil dos endividados.

De acordo com os dados, quanto aos motivos que levam ao atraso das prestações, destacou-se o uso do dinheiro que seria para o pagamento da prestação em despesas inesperadas, devido a problemas com doenças e/ou desemprego e motivos como o atraso do boleto, razão essa que fez diversos entrevistados relatar que eles não chegam até a data do vencimento nas suas residências e que eles têm de se deslocar até uma agência da Caixa Econômica Federal para pegá-lo.

Em relação ao perfil dos inadimplentes, observou-se que a maioria é mulher, com até 41 anos, casadas ou solteiras, que possuem dependentes, com escolaridade entre ensino fundamental de primeira a quarta série e ensino médio, sendo a maioria com renda familiar mensal de até R$ 1.400,00.

Quanto às características de gerenciamento financeiro dos inadimplentes, a maioria possui outras dívidas além do financiamento do Minha Casa Minha Vida e dívidas em atraso. No que se refere aos gastos, a maioria gasta menos ou igual ao que ganha, contudo muitos gastam mais que do ganham. Referente à poupança, a maior parte dos entrevistados nunca conseguiu fazer, e o percentual de indivíduos que têm o nome ligado ao cadastro negativo mostrou-se bastante expressivo.

No estudo, percebeu-se, também, que os inadimplentes no Minha Casa Minha Vida tendem a ter piores atitudes ao endividamento, principalmente ao acharem que é normal as pessoas ficarem endividadas para pagarem suas contas, comprar parcelado, mesmo que no total saia mais caro e acreditarem menos que é melhor primeiro juntar dinheiro e só depois gastar.

No ano passado, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, revelou que a inadimplência da faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida estava em 25%. “É algo injustificável, porque a sociedade brasileira aporta 90% do valor do imóvel e cabe ao beneficiado pagar só 10% do pagamento por dez anos. As pessoas precisam ser conscientizadas de que se não pagarem e não cumprirem com seus compromissos, não terão a escritura”, declarou o ministro à época.

Inadimplência torna as regras de financiamento mais rígidas

A inadimplência levou a Caixa Econômica Federal a tornar as regras de financiamento do programa Minha Casa Minha Vida mais rígidas. Financiar um imóvel com renda informal, por exemplo, se tornou quase impossível atualmente. “O programa continua, não sofreu nenhum tipo de paralisação. Mas, existe hoje um cuidado maior e fiscalização da veracidade da renda, especialmente quando ela é informal”, observa o gerente Julierme Torres.

Em julho deste ano, o JORNAL DE FATO publicou matéria mostrando que a Caixa Econômica Federal havia reduzido os recursos para o programa e tinha criado barreiras que dificultavam os financiamentos.

Na oportunidade, o experiente corretor de móveis Rodrigues Neto relatou que, antigamente, a Caixa respondia por 80% dos financiamentos do Minha Casa Minha Vida, enquanto que atualmente responde por cerca de 25% desse mercado.

O Banco do Brasil hoje é o principal agente financiador do programa.

A diferença entre essas duas instituições financeiras é que a Caixa Econômica Federal criou várias normas dificultadoras de acesso ao crédito imobiliário, enquanto que o Banco do Brasil ainda aceita algumas condições barradas pelo concorrente.

Por exemplo, o Banco do Brasil ainda aprova financiamentos do Minha Casa Minha Vida para famílias com renda informal ou com complemento de renda, que é quando o salário formal precisa ser complementado com outro rendimento para alcançar o valor de financiamento.

Rodrigues Neto explicou que o principal motivo para a Caixa Econômica Federal endurecer o jogo foi a inadimplência.

A corretora de imóveis Albete Magna reforçou que os financiamentos estão mais viáveis pelo Banco do Brasil em razão de a Caixa não estar aceitando renda informal.

Outra grande dificuldade para a aprovação dos financiamentos é a restrição de crédito. “Praticamente, 40% dos processos são reprovados em razão de as pessoas estarem com o nome negativado”, conta Rodrigues Neto.

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