Segunda-Feira, 16 de julho de 2018

Postado às 11h45 | 26 Fev 2018 | Redação Sem planejamento: escolas não têm estrutura para ensino em tempo integral

Crédito da foto: De Fato Ensino integral na Francisco Antônio de Medeiros vai começar com obras em andamento

Magnos Alves/Da Redação

Neste ano, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte ofertará 12 mil vagas para o ensino médio em tempo integral em 29 escolas. Em Mossoró, são quatro escolas estaduais nesse modelo de ensino, sendo três de ensino médio – Aída Ramalho Cortez Pereira, Professor Francisco Pedrosa e Francisco Antônio de Medeiros –, que juntas somam 613 alunos matriculados; e uma de ensino fundamental – Cardeal Câmara, com 154 alunos matriculados, do 1° ao 5° ano.

No ensino em tempo integral, os alunos passam o dia todo na escola, em horários que variam das 7h às 17h, se alimentando e fazendo todas as suas necessidades na própria unidade escolar.

É um período puxado que exige uma determinada estrutura. Estrutura essa que ainda não é oferecida pelas escolas de Mossoró.

A reportagem do JORNAL DE FATO visitou duas escolas que trabalham em tempo integral e constatou que ainda falta muito para que professores e alunos tenham a estrutura adequada para esse modelo de ensino.

Na Escola Estadual Francisco Antônio de Medeiros, no bairro Belo Horizonte (zona sul), por exemplo, as aulas serão iniciadas nesta segunda-feira (26) em meio a uma obra que não foi concluída a tempo.

Todas as atividades da unidade serão realizadas em apenas quatro salas, incluindo aulas e demais atividades, que ainda não foram concluídas.

O vice-diretor da escola, Jadson Arnaud, informa que as aulas já serão iniciadas com uma semana de atraso por conta da obra, que vai se estender por mais alguns meses.

Ele também observa que a unidade não conta com quadra esportiva ou laboratórios para o desenvolvimento de atividades esportivas e estudos. O campo de futebol que poderia ajudar no dia a dia está tomado por obra, material e entulhos de construção. “Quem quiser fazer um bom ensino médio, contando com a abnegação dos servidores, pode nos procurar, mas não será dentro das condições ideais para o que se propõe com o ensino integral”, destaca Jadson.

Professor de História da Escola Francisco Antônio de Medeiros, Luiz Medeiros relata que o tempo integral foi implantado sem as condições necessárias. “Não tem as condições adequadas que deveria haver muita, tem muita coisa no improviso”, declara.

Luiz Medeiros acrescenta que a expectativa é que o ambiente melhore após a conclusão da obra e cumprimento de outras promessas, como a instalação de laboratórios. “Este ano será melhor que o ano passado, quando concluir a reforma. Estamos conquistando melhorias aos poucos”, complementa o professor.

Na Escola Estadual Cardeal Câmara, no bairro Abolição II (zona oeste), única de ensino fundamental com tempo integral, a situação não é diferente. A estrutura física também está bem distante do desejado. “A escola não está adequada; os profissionais é que estão se adequando”, inicia a entrevista Ana Lúcia, diretora da unidade.

A estrutura não conta com local de descanso para as crianças, laboratórios ou quadra esportiva e enfrenta problema, até, com o fornecimento de energia elétrica. “Não temos como ligar todos os equipamentos que recebemos ao mesmo tempo. Na hora do descanso, por exemplo, a gente liga as centrais de ar de duas salas de aula para as crianças descansar e desligamos o restante, pois a energia não suporta”, relata a diretora.

Sem quadra esportiva ou campo de futebol, as atividades de dança e música são desenvolvidas no refeitório. Não há sequer banheiros para todos os 150 alunos tomar banho. E não é por falta de espaço. A escola conta com uma grande área que se encontra tomada por mato. “A alimentação ainda é pouca para crianças passar o dia”, acrescenta Ana Lúcia.

Ao JORNAL DE FATO, a Secretaria de Educação informou que em 2017 foram entregues aparelhos de ar-condicionado, sofá, kits refeitórios, smartv e armários “para dar mais conforto para os alunos da rede estadual”.

O Governo afirma que tem investido R$ 14 milhões nas escolas estaduais de ensino médio em tempo integral. Segundo o Governo, essa modalidade de ensino deve receber R$ 21,7 milhões do Ministério da Educação para fortalecimento e ampliação das vagas.

 

Tempo integral afasta alunos

O modelo de ensino em tempo integral tem atraído poucos alunos em Mossoró. Na Escola Estadual Francisco Antônio de Medeiros, por exemplo, o número de estudantes matriculados neste ano representa cerca de um terço da quantidade que a unidade recebia antes de aderir ao novo sistema.

Jadson Arnaud informa que a escola contava mais de 200 alunos quando oferecia ensino por turnos. Para 2018, apenas cerca de 70 se matricularam. Além da estrutura inadequada, Jadson aponta que outros fatores também pesam contra o ensino em tempo integral. “Muitos adolescentes e jovens precisam trabalhar e não podem passar o dia todo na escola”, exemplifica. O estudante que se matricula no ensino em tempo integral precisa, obrigatoriamente, cumprir toda a jornada escolar, que vai das 7h30 às 17h.

Para o coordenador estadual do Sinte-RN, Rômulo Arnaud, a falta de condição estrutural é fator decisivo para que a comunidade não acredite nesse modelo de ensino. “Escola de tempo integral tem que ter no mínimo condições físicas, professores capacitados e formados e também remunerados no padrão dos institutos federais. É óbvio que precisa avançar muito. Pelas condições que nós temos hoje, dificilmente essas escolas terão credibilidade para ter alunos, para que a gente possa ter sucesso nesse tipo de educação”, avalia o sindicalista.

 

Ensino integral está sendo feito sem planejamento e com estrutura ruim, diz Sinte

Sindicato defende ensino em tempo integral em todas as escolas públicas, mas cobra planejamento e organização para as pessoas, de fato, acreditar no modelo

DE FATO – Como está a situação das escolas que receberão o ensino em tempo integral?

RÔMULO ARNAUD – O Governo vem implantando gradativamente o ensino em tempo integral no Rio Grande do Norte de forma muito precária, em alguns casos. Em Mossoró, por exemplo, pegaram uma escola de do ponto de vista físico que era uma das piores escolas da cidade, que vem num processo de adequação, mas muito lento. Essas condições, apesar de todo o esforço da equipe pedagógica, dos gestores da escola, têm sido um dificultador. Simplesmente, as pessoas não acreditam na escola e, consequentemente, no ensino em tempo integral.

O SINTE considera que essas escolas estão preparadas para esse método de ensino?

AS ESCOLAS não estão preparadas. Muito pelo contrário. Em alguns casos, estão pegando as piores escolas do município para implantar tempo integral. O processo de estruturação é lento. Muitas vezes, a escola não tem nem espaço físico para fazer quadra, laboratórios. Escola de tempo integral tem que ter uma série de equipamentos que a estrutura física tem que ser grande. Na maioria das vezes, as escolas não têm. Tem funcionado muito mais pelo comprometimento da equipe do que pelas condições. E todas as condições que foram prometidas chegam com muito atraso. Algumas coisas que deveriam ter sido feitas no ano passado na Escola Francisco Antônio de Medeiros, que foi a primeira a receber tempo integral, só estão fazendo agora. Enfim, de uma maneira geral, as escolas não têm estrutura suficiente para atender essa demanda de tempo integral.

HOUVE investimento na capacitação dos profissionais e há pessoas suficientes para lidar com esse tipo de ensino?

OS PROFESSORES passaram, sim, por capacitação. Essas escolas têm uma característica própria. Quem faz o monitoramento, o acompanhamento da equipe são organizações privadas, que fazem essa formação. É outra metodologia que a gente discorda da forma como esses professores passam por essas formações. É a privatização da formação dos professores e, muitas vezes, você forma professores com a preocupação de trabalhar os alunos numa lógica muita mais mercantilista, numa lógica de formação para o mercado de trabalho sem considerar o todo do aluno.

O SINTE é favorável à escola em tempo integral?

POR princípio, nós do movimento sindical sempre defendemos, nós achamos que é fundamental. Nós só teremos escola pública de qualidade neste país quando todas as escolas forem de tempo integral. Agora é preciso melhorar o planejamento, a organização, para as pessoas, de fato, acreditar nisso. O que a gente vê até agora é que essas escolas têm pouquíssimos alunos, simplesmente porque as pessoas não acreditam no projeto. Não acreditam porque vai sendo feito de maneira desorganizada, sem planejamento, pegando estruturas muito ruins. Levará anos para que essas escolas estejam realmente adequadas para ter uma educação de qualidade.

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