Sábado, 18 de novembro de 2017

Postado às 10h45 | 30 Out 2017 | Redação Documentário conta a história de seis mulheres que perderam os filhos para a violência

Crédito da foto: Reprodução/Documentário Trabalho traz depoimento de quatro mães e duas avôs-mães

Fábio Vale/ Repórter

“Muitas vezes, também, me dava vontade de ir lá no túmulo. Se eu pudesse, tirava a tampa e entrava lá para ficar junto dele.” “São tantas memórias boas... Ele era um menino carinhoso. Ele era um menino bom... Para mim, eu tô vendo ele achando graça de tudo! Ele era maravilhoso! Não vou mentir só porque ele era meu neto!”.

“Se fosse porque ele era uma pessoa errada, a gente se conformava, mas, a gente nem sequer esperava... Ele chegou e nem perguntou o nome. Porque Jerry é Jerry e Alberto é Alberto!”. “Foi a polícia que matou ele. Só ninguém sabe quem é. Como é o nome. Qual deles. Isso aí a gente não sabe não. Mas, que foi a polícia, foi!”.

Esses são alguns dos depoimentos reproduzidos do documentário “Mater Dolorosa: um relato das mães que perderam seus filhos”. O trabalho, que também poderia ser intitulado “Mães sem filhos” ou “Órfãs da violência”, conta a história de seis mulheres que perderam os filhos para a violência homicida em Mossoró.

O trabalho audiovisual, com duração de 30 minutos, foi produzido por um concluinte do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O conteúdo dele ainda não foi disponibilizado ao público, mas a reportagem do DE FATO conversou com o autor, Jorge Amâncio, que contou como se deu o processo de produção e o resultado do trabalho.

 

Documentário é inspirado na ‘Geografia da Dor’ e motivado por índices de violência

Com o título inspirado em uma música religiosa que fala da dor das mães que perdem filhos para a violência, o documentário levou cerca de três meses para ser produzido. É o que conta o autor do trabalho, Jorge Amâncio, que aos 23 anos de idade conclui o curso de Jornalismo.

Ele lembra que começou a elaborar o material no mês de julho deste ano, com a ajuda do professor e orientador Esdras Marchezan. “A intenção era fazer um trabalho prático e objetivo. Então, a ideia de projeto experimental veio como sugestão do professor, que falou sobre o Geografia Del Dolor”.

Amâncio esclareceu que “Geografia da Dor” é uma proposta mexicana de um site que trata de violência, justiça e impunidade e reúne diferentes relatos envolvendo pessoas de diversas regiões do México que perderam alguém para a morte ou que simplesmente desapareceu.

“Diferentemente dessa proposta, o documentário foca na dor de mães que perderam filhos para a violência”, explica ele, pontuando que além de abordar o sentimento de perda, o trabalho foi motivado também pelo número crescente de crimes contra a vida.

“Os altos índices de violência no estado também motivaram o trabalho. São muitas tentativas e homicídios registrados diariamente”, frisa o autor do documentário, destacando que na elaboração do material utilizou dados do Observatório da Violência Letal Intencional, grupo de estudo da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) que mapeia a violência no estado.

 

CRIMES BANAIS

“São dados alarmantes e preocupantes”, observa Amâncio. “Nem sempre a vítima tem envolvimento com o mundo do crime”, acrescenta ele, fazendo uma avaliação das histórias apresentadas no documentário. “A motivação das mortes parece não ser linear”, pontua.

 

Orientador do documentário destaca importância de abordar violência urbana

O professor e orientador do trabalho, Esdras Marchezan, disse que o aluno tinha, inicialmente, outro projeto em mente. “A gente começou a discutir a possibilidade de mudança. E com base nessa realidade, a gente decidiu focar em um tema que estivesse mais evidente e que tivesse uma relação mais direta com a sociedade.”

Marchezan conta que, após um consenso entre professor e aluno, ficou decido abordar a questão da violência urbana. “Pelo fato de, na maioria das vezes, os relatos darem conta apenas do fato em si e das versões das autoridades estatais, da polícia, surgiu a ideia de ouvir as famílias, as mães, que são as que sentem especialmente esse impacto de perder alguém envolvido ou não com o crime”, destacou.

“Em muitos casos, a vida dessas pessoas fica modificada para sempre. Tem casos de mães que entram em depressão. Mães que nunca mais são a mesma pessoa”, ressaltou ele, frisando também que a proposta de trabalhar um material para a internet foi com base na questão da convergência de mídias.

“Uma proposta de webdocumentário para que essas histórias se espalhem, sendo distribuídas em vários formatos”, acrescentou Marchezan, destacando que o material tem elementos para diferentes redes sociais, como Instagram, Facebook; além de uma futura exibição do trabalho na televisão, para que se possa alcançar um maior público.

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