Sábado, 18 de novembro de 2017

Postado às 11h45 | 06 Nov 2017 | Redação Mais de 870 pessoas estão desaparecidas no Rio Grande do Norte, aponta Anuário

Crédito da foto: Reprodução Dados são do 11° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta semana

Fábio Vale/Repórter

Mais de 657 mil pessoas foram dadas como desaparecidas em todo o país durante o período de 2007 a 2016. Dentro desse cenário nacional, o Rio Grande do Norte aparece com mais de 870 casos. O problema considerado de segurança pública é mais recorrente do que a grande maioria das pessoas imaginam e também afeta famílias que residem em Mossoró.

O mais recente quadro sobre a quantidade de pessoas desaparecidas no território brasileiro foi apresentado nesta semana pelo 11° Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento mostra que dentro de um período de dez anos, o Rio Grande do Norte teve 877 registros de pessoas desaparecidas. Desse total, no primeiro ano pesquisado foram 48 registros.

No ano seguinte, esse número caiu para 33 e em 2009 subiu para 50. Em 2010, a quantidade de pessoas desaparecidas passou para 54 e em 2011 diminuiu para 36. No ano seguinte, o estado teve 70 registros e em 2013 teve uma leve queda para 64. Em 2014, o número de pessoas desaparecidas no território potiguar passou para 84 e no ano seguinte caiu para 75. Em 2016, último ano levantado pelo estudo, esse número pulou para 363.

Os dados são atribuídos às Secretarias Estaduais de Segurança Pública e/ou Defesa Social; às Secretarias Estaduais de Justiça e/ou Cidadania, ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); à Cruz Vermelha, ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública; e a registros policiais da Delegacia Especializada em Capturas (DECAP), que, segundo o estudo, não representa o total de desaparecidos no estado entre 2007 e 2015.

Além dos números absolutos de registros de pessoas desaparecidas, o estudo aponta também a taxa por 100 mil habitantes. Entre 2007 e 2011, o índice no território potiguar não passou de 1,7. Em 2012, a taxa foi de 2,2 e no ano seguinte foi de 1,9. O índice de pessoas desaparecidas no estado em 2014 foi de 2,5 e no ano seguinte foi de 2,2. A maior taxa do período levantado se deu no ano de 2016: 10,4.

A reportagem encaminhou e-mail para as assessorias de imprensa da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SESED) e da Polícia Civil com o fim de obter mais informações sobre o assunto, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno.

‘A família está em desespero’, diz sobrinha de tio que desapareceu

“A família ainda está em desespero, por não saber se ele está bem, se está vivo, por onde anda.” É assim que a empreendedora de marketing multinível Maria Eduarda Melo Silva descreve a sensação de ter um parente dado como desaparecido.

A jovem conta que o tio dela sumiu no dia 19 do mês passado. “No dia que ele desapareceu, ele veio para Mossoró e saiu visitando os irmãos dele que moram aqui”, lembra ela, detalhando que isso aconteceu após ele ter entrado em depressão depois de ter ficado desempregado e não ter conseguido se aposentar.

“Ele passou na casa de uma tia minha dizendo que ia para a de outro tio meu no bairro Sumaré e nesse caminho ele não apareceu mais”, relata Maria Eduarda sobre o sumiço de Raimundo Nonato de Melo, “Kaká”, de 43 anos de idade, que reside no assentamento Osmar Vicente, no município de Governador Dix-sept Rosado.

“Ele estava vestindo calça jeans e camisa do Flamengo e de óculos de cor escura”, detalha a sobrinha de Kaká. Segundo ela, o desaparecimento foi registrado em uma delegacia de polícia que ajudou a família nas buscas durante os primeiros dias. “A polícia disse que não poderia fazer muita coisa”, lembra a jovem, contando que o tio tem uma filha de nove anos de idade que sente muito a falta do pai.

Maria Eduarda lamenta o surgimento de informações falsas sobre o paradeiro do tio dela. “A população, de certa forma, tem aumentado a aflição, dando informações falsas e alimentando mentiras.” A sobrinha de Kaká frisa que a família confia em Deus para encontrar o parente e pede para que sejam repassadas somente informações com procedência.

“Pedimos que só compartilhem informações verdadeiras e deixo meu número à disposição de notícias que realmente ajudem: (084) 99955-0773”, diz ela. Até o fechamento desta matéria na tarde da última sexta-feira (3), Kaká seguia desaparecido.

RN conta 20 registros em site nacional de pessoas desaparecidas

A organização não governamental (ONG) Desaparecidos do Brasil dispõe de um site de cadastro de pessoas desaparecidas. Até o fechamento desta matéria na tarde da última sexta-feira (3), o Rio Grande do Norte contava 20 registros na página da internet da ONG.

O site traz algumas dicas de procedimentos a serem adotados em casos de desaparecimento. A orientação é para que assim que se perceber uma mudança de rotina, ou após tentativas de conseguir contato com a pessoa em questão e perguntar a parentes, amigos, namorados, vizinhos etc., os familiares devem procurar a polícia para formalizar o desaparecimento.

“Existe um mito de que é preciso esperar 24 horas, 48 horas para comunicar o desaparecimento. Não é necessário. Ele deve ser comunicado de imediato”, orienta o site, lembrando que é importante levar foto atual da pessoa e algum comprovante de residência. Antes disso, a família pode também tentar rastrear os últimos passos da pessoa desaparecida, através de rede social, amigos, grupos, celular, na escola, no trabalho.

O site lembra também que quando ocorrer a localização da pessoa desaparecida, o comunicante do desaparecimento deverá retornar à delegacia de polícia na qual foi comunicado o desaparecimento, a fim de dar ciência às autoridades policiais, que providenciarão a baixa junto ao sistema informatizado.

Psicóloga orienta sobre como lidar com sensação de perda

“O sentimento que rodeia quem tem um ente querido desaparecido é de muito pesar e angústia, pois existe uma incerteza sobre a morte e vida, o que agrava ainda mais o sofrimento. Os recursos emocionais e o tempo ajudam a amenizar a dor da perda.” É assim que a psicóloga Naara Rebouças, do Hapvida, avalia a sensação de perda que atinge quem tem um parente ou amigo dado como desaparecido.

A especialista orienta que é preciso aprender a lidar com o sentimento de incerteza e pontua o que pode levar uma pessoa a sumir. “Existem diversos motivos, sendo os principais: conflitos familiares, drogas e tráfico de pessoas. Já os casos de desaparecimento de crianças têm a questão do descuido, maus-tratos etc..”

Segundo a psicóloga, infelizmente não existe um método específico para a ressignificação do luto por desaparecimento. “Somente o tempo trará uma conformação/aceitação”, esclarece. Naara Rebouças explica, também, como lidar com situações em que o desaparecido é vítima de morte violenta.

“Não é que reduz o sofrimento, mas podemos afirmar que é menos doloroso do que sabermos que a pessoa foi assassinada e o corpo não é encontrado. O ato de velar e sepultar faz parte da cultura, é um momento para se despedir, prestar homenagens, respeitar o corpo, é a representação de um fechamento físico àquele que não está mais vivo”, pontua a psicóloga.

Naara Rebouças fala ainda sobre como ficam os familiares de pessoas desaparecidas que nunca são encontradas. “Infelizmente, são tomadas pela incerteza por não saberem o destino do desaparecido. Não sabem se ele está vivo, se morreu, o que aconteceu ou está acontecendo. Essa dúvida gera ainda mais sofrimento à família.”

A psicóloga explica que o nível do sofrimento é muito relativo e que vai depender do afeto que cada um sentia pelo desaparecido. “Os pais, geralmente, têm seu sofrimento intensificado por saberem que a criança é indefesa, não tem como se defender etc.”, finaliza.

Tags:

Rio Grande do Norte
pessoas desaparecidas
Anuário Brasileiro de Segurança Pública

voltar