Quinta-Feira, 29 de outubro de 2026

Postado às 10h00 | 29 out 2026 | Redação “40 Horas de Angicos” é Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte

Crédito da foto: Reprodução Monumento do educador Paulo Freire, em Angicos, obra do escultor Guaraci

Da Redação do Jornal de Fato

“As 40 Horas de Angicos são um capítulo fundamental da história do Rio Grande do Norte e da educação brasileira. Ao reconhecer essa experiência como Patrimônio Cultural Imaterial do nosso estado, reafirmamos o compromisso do governo com a preservação de uma memória que pertence ao povo potiguar e que tem muito a ensinar às novas gerações”, destaca a governadora Fátima Bezerra.

A experiência de alfabetização de adultos coordenada pelo educador Paulo Freire, em 1963, no município de Angicos, foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. A medida foi publicada no Diário Oficial do Estado de terça-feira, 27, e busca preservar a memória de uma das iniciativas mais emblemáticas da educação popular brasileira.

A lei tem origem em projeto de autoria do deputado estadual Ezequiel Ferreira.

Realizada no interior potiguar, a experiência ganhou projeção nacional ao propor um modelo de alfabetização baseado nas vivências, nos conhecimentos e na realidade social dos participantes. Com o reconhecimento, o Governo do Estado contribui para valorizar o significado histórico, cultural e educacional da iniciativa e assegurar a preservação de seu legado para as futuras gerações.

 

Memórias, relatos orais e saberes

O reconhecimento abrange as memórias, os relatos orais, os saberes e as práticas pedagógicas associados às pessoas e comunidades que participaram do projeto. Entre os objetivos estão incentivar pesquisas, divulgar referências históricas e culturais e fortalecer a transmissão desse patrimônio imaterial.

A experiência teve início em 28 de janeiro de 1963 e foi concluída em 2 de abril daquele ano. A proposta coordenada por Paulo Freire tinha como meta alfabetizar adultos em 40 horas de atividades. A primeira turma reuniu 380 participantes, dos quais aproximadamente 300 concluíram o curso.

Na época, Angicos tinha cerca de 9,5 mil habitantes. O projeto utilizava palavras presentes no cotidiano dos alunos como ponto de partida para o aprendizado da leitura e da escrita, aproximando o processo de alfabetização da realidade social e profissional dos participantes.

 

Paulo Freire no Rio Grande do Norte

A realização do projeto no estado começou a ser articulada em 1962 pelo então governador Aluízio Alves, natural de Angicos, com a intermediação do secretário estadual de Educação, Calazans Fernandes. A proposta era ampliar a iniciativa para outras regiões potiguares, contribuindo para enfrentar os elevados índices de analfabetismo da época. A experiência se inseria em um contexto de mobilização nacional em torno da educação de adultos e da ampliação do acesso ao conhecimento.

O projeto, porém, foi interrompido pelo golpe militar de 1964. Paulo Freire foi preso e posteriormente exilado, enquanto iniciativas de educação popular passaram a enfrentar restrições durante a ditadura.

“Essa experiência também nos remete a um período decisivo da história do Brasil, quando iniciativas voltadas à democratização do conhecimento foram interrompidas pela ditadura militar, que perseguiu e exilou Paulo Freire”, ressalta a governadora.

“Preservar esse legado é reconhecer a importância da educação como direito, instrumento de emancipação humana e fundamento da democracia. Como professora e defensora da educação pública, compreendo que valorizar as 40 Horas de Angicos é também reconhecer a capacidade do nosso povo de transformar sua própria realidade por meio do conhecimento. O Rio Grande do Norte tem orgulho de fazer parte dessa história”, finaliza.

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