Quinta-Feira, 23 de April de 2026

Postado às 09h45 | 23 Apr 2026 | redação Atacante ex-Santos, Flamengo e Atlétlico tenta superar a depressão na 5ª divisão

Crédito da foto: Reprodução Ex-Sants, Flamengo e Atlético-MG, Geuvânio joga a 5ª divisão de SP pelo Votoraty

Por Emílio Botta – GE

Um saco com uniformes é colocado em cima da maca no vestiário. O local parece mais um cômodo de uma casa abandonada, pouco iluminado e com a pintura das paredes descascando. Cada jogador se levanta e busca o kit do seu respectivo tamanho para mais um treino do Votoraty, time que ficou 14 anos inativo e retornou ao futebol neste ano, na quinta e última divisão do Campeonato Paulista.

Os rostos desconhecidos são de atletas praticamente amadores que chegaram aos poucos e até a pé ao estádio localizado ao lado do principal terminal de ônibus de Votorantim, a 100 quilômetros de São Paulo. Mas há também um mais famoso: o atacante Geuvânio, de 34 anos, revelado pelo Santos e com passagens por Flamengo, Atlético-MG e futebol chinês.

Enquanto muitos buscam uma oportunidade, a chance de mudar a vida pessoal e da família, Geuvânio quer encerrar a carreira, que teve picos de sucesso, com dignidade e vencer de uma vez por todas um dos maiores adversários que enfrentou na vida: a depressão.

“Isso atrapalhou muito a minha carreira. Tentei retomar algumas vezes, porém não consegui por causa das lesões. Estava cogitando até não querer mais jogar profissionalmente, estava nos amadores de São Paulo. Porém, dentro de casa via que meus filhos tinham aquela paixão por futebol”.

“A gente não é super-homem, tem que assumir que precisa de ajuda. E foi um momento que acabei perdendo um pouco do caminho, que era o futebol. Tive alguns problemas pessoais de cabeça e me abalei, me abati. Não queria mais futebol”, disse Geuvânio, em entrevista ao ge.

Foram apenas sete jogos disputados nos últimos quatro anos. As passagens por Juventude, Ituano e Oeste terminaram precocemente em virtude das lesões musculares. A maior ferida, no entanto, foi emocional. Sem conseguir jogar em alto nível, o atacante se viu só, sem rumo e vontade de dia após dia provar que ainda era possível fazer o que mais ama: jogar futebol.

“É isso que as pessoas não enxergam, porque, às vezes, o dinheiro não é tudo. Às vezes tem dinheiro, mas você não está feliz. Tive esses problemas e não consegui retomar. Então, tive que buscar ajuda psicológica. Estou passando no psicólogo também para continuar o trabalho. Eu não achava justo terminar da forma que estava, achei que ainda tinha alguma lenha para queimar”.

“Eu aprendi que você é valorizado quando você está bem, quando está produzindo. Quando você já não entrega mais o que entregava antes, as pessoas começam a não te tratar do jeito que o ser humano merece. Você tem que ser acolhido, o atleta em si não é um robô, não é uma peça que tem que tratar sem sentimento. O atleta tem sentimento. A partir do momento que você acaba deixando um pouco a desejar, as pessoas já vão te deixando um pouco mais de lado”.

Geuvânio ficou o ano de 2024 afastado do futebol profissional. Buscou retomar a carreira no ano seguinte, mas não conseguiu deslanchar e encontrou na várzea uma oportunidade de jogar mesmo ainda enfrentando problemas físicos e mentais. Por isso, não se considerava mais jogador profissional. Até receber uma ligação e decidir tentar mais uma vez.

“Acho que as lesões tiraram um pouco do meu foco. Quando ia voltar a jogar, machucava. Eu tive muitas lesões de panturrilha que acabaram me atrapalhando. Infelizmente, a gente às vezes não entende as coisas que acontecem. Isso foi me desanimando. Apareceram algumas coisas nesse meio tempo, alguns clubes, porém, não dava certo, não conseguia fechar. Fui desanimando e me encontro hoje numa situação que estou tentando retomar”.

PROPOSTAS VIA INSTAGRAM

Geuvânio não possui mais empresário. Ele acredita que isso seja um dos fatores para ter ficado sem clube durante um período e sem o apoio que considerava necessário no momento em que buscava colocar um ponto final nas seguidas lesões.

O atacante revelou que as propostas para voltar a jogar surgiram mais nas redes sociais. Ele próprio analisava, negociava e decidia o seu futuro, algo praticamente impensável para a maioria dos jogadores de futebol em atividade.

“Hoje estou trabalhando sozinho. No meu Instagram, às vezes, entro em contato com um empresário ou um clube, aí conversa comigo, vê como que estou, se tenho a possibilidade de jogar e aí negocio. Estou mais assim agora. É um pouco mais fácil para mim pelo fato de ter um nome no futebol. Mas para quem não tem tanta história no futebol, é muito mais difícil”.

Geuvânio garante que não precisa mais do futebol para sobreviver. O dinheiro conquistado ao longo das passagens por Santos, Flamengo, Atlético-MG e, principalmente, no futebol chinês lhe garantiu uma aposentadoria tranquila. Em 2016, o atacante foi negociado com o Tianjin Quanjian por R$ 53,7 milhões com salário de R$ 1 milhão por mês.

“Tenho as minhas coisas. Graças a Deus, consegui juntar dinheiro, comprar umas casas para aluguel. Tenho a minha vida estabilizada. O fato de estar voltando é mais para encerrar a minha carreira legal, de poder entrar [em campo] com meus filhos, de ter aquele encerramento de uma carreira legal e não parar do jeito que parei”.

MAIS SOBRE GEUVÂNIO

NOME: Geuvânio Santos da Silva Lima

IDADE: 34 anos (5/4/1992)

CARREIRA: 314 jogos | 47 gols | 17 assistências

CLUBES: Santos, Penapolense, Tianjin (China), Flamengo, Atlético-MG, Athletico, Chapecoense, Náutico, Ituano, Juventude, Oeste e Votoraty.

TÍTULOS: Campeonato Paulista (2015).

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