Tecnologia desenvolvida na UFRN aponta para construção civil mais responsável e inovadora
Por Sophia Araújo / Especial – UFRN
A construção civil brasileira sustentável pode ser uma das soluções mais promissoras para união de sustentabilidade, baixo custo e viabilidade técnica. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), desenvolveram um tijolo solo-cimento produzido com manipueira, efluente resultante do processamento da mandioca.
A inovação já rendeu uma patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e aperfeiçoou uma linha de estudos na área de materiais ecológicos.
O dispositivo patenteado consiste em tijolos maciços ou vazados fabricados por meio de substituição parcial ou total da água de manipueira. O processo é realizado por uma composição que combina solo classificado segundo a HRB-AASHTO, cimento Portland e o efluente orgânico. Após a prensagem manual ou hidráulica, o material passa por sete dias de cura antes de atingir propriedades compatíveis com as atuais normas.
Os ensaios laboratoriais confirmaram que os tijolos apresentam resistência à compressão superior a 2 MPa, absorção de água abaixo de 20% e perda de massa menor que 7%. Esses índices atendem integralmente às normas ABNT NBR 8491 e NBR 13553, que regulamentam os requisitos de qualidade para tijolos de solo, garantindo desempenho comparável e, por vezes, superior ao de produtos convencionais.
Processo produtivo é simples, de baixo custo e acessível
O dispositivo oferece uma série de facilidades voltadas à construção civil. A utilização de manipueira reduz o consumo de água potável, ao mesmo tempo em que dá destino ambientalmente adequado a um resíduo que, descartado de forma irregular, pode contaminar solos e corpos d’água. Além disso, o processo produtivo é simples, de baixo custo e acessível, inclusive para comunidades rurais.
No cotidiano, a aplicação dos tijolos pode se estender desde residências unifamiliares e habitações de interesse social até projetos sustentáveis. Casas de farinha e associações de produtores podem transformar um efluente poluente em um material construtivo de valor agregado, fortalecendo práticas de economia circular em regiões interioranas que dependem da cadeia da mandioca.
Para o professor Jônatas Macêdo de Souza, atualmente docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) e um dos inventores da tecnologia, a importância da invenção está justamente na sua abrangência. “Reduz impactos ambientais, sociais, econômicos e tecnológicos ao mitigar o descarte inadequado da manipueira; diminui custos de produção e oferece uma alternativa validada experimentalmente para a construção sustentável”, afirma o professor.
A relevância acadêmica do processo de patenteamento também se destaca. A iniciativa transforma resultados científicos em inovação tecnológica protegida, aproximando o meio universitário do setor produtivo e fortalecendo a pesquisa nacional em materiais ecológicos. O dispositivo é fruto de estudos desenvolvidos por Jônatas de Souza, enquanto aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (Ppcivam) e aluno de doutorado do Programa de Ciência e Engenharia de Materiais (Ppgcem), ambos realizados sob orientação do professor Wilson Acchar, com colaboração do IFPB.
A equipe já desenvolveu protótipos em escala laboratorial e semi-industrial, submetidos a ensaios de resistência mecânica, absorção e durabilidade. As avaliações comprovaram a viabilidade técnica do material, e o projeto segue em fase de aperfeiçoamento e validação em campo, etapa essencial para futuras aplicações comerciais e industriais.
Marco na engenharia sustentável
Além dos avanços tecnológicos, os pesquisadores também contribuíram coletivamente para a produção científica internacional sobre o tema. O grupo participou da elaboração do livro Use of Cassava Wastewater and Scheelite Residues in Ceramic Formulations, publicado pela Springer em 2021. O trabalho consolida a relevância dos estudos sobre o uso de resíduos agroindustriais como alternativa sustentável para a construção.
A invenção é fruto de um esforço coletivo da equipe de pesquisadores. Jônatas Macedo foi responsável pela execução experimental e desenvolvimento das formulações; Wilson Acchar coordenou cientificamente o projeto e atuou na orientação; Luciana Lucena colaborou nas análises; Vamberto Monteiro contribuiu com o suporte técnico e os ensaios laboratoriais; e Sóstenes Rêgo auxiliou na sistematização dos dados e na validação tecnológica. Todos participaram da redação e defesa do pedido de patente enviado ao Inpi.
Com resultados robustos, impacto ambiental significativo e potencial de aplicação direta em comunidades que mais necessitam de soluções acessíveis, o tijolo produzido com manipueira surge como um marco na engenharia sustentável brasileira. A tecnologia, ainda em processo de aprimoramento, aponta para um futuro em que resíduos deixem de ser um problema e se tornem protagonistas de uma construção civil mais responsável e inovadora.
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