Origilene Dantas, primeira autora da pesquisa, durante atuação em campo
Por Pablo Araújo / Especial – UFRN
Durante anos, uma única espécie de aracnídeo havia sido identificada nas cavernas do Rio Grande do Norte. Agora pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), identificaram duas espécies diferentes do anteriormente chamado apenas Rowlandius potiguar.
As descobertas foram feitas pela bióloga Origilene Dantas, durante o mestrado de Sistemática e Evolução realizado na UFRN, e colaboradores. Publicada em 2026, a pesquisa juntou análises moleculares e morfológicas para ir mais a fundo sobre a diversidade do grupo de aracnídeos conhecido como esquizômido, encontrados em ambientes subterrâneos da região semiárida do Rio Grande do Norte.
O Rowlandius potiguar havia sido registrado em mais de 20 cavernas no Rio Grande do Norte, algumas delas relativamente distantes entre si. Para os pesquisadores, essa distribuição diversificada levantou a hipótese de que, na verdade, existisse mais de uma espécie desse animal. As análises genéticas ajudaram a confirmar a hipótese. Os resultados moleculares foram comparados com uma análise detalhada das características físicas do aracnídeo. De toda forma, a conclusão foi a mesma: existiam duas novas espécies, além do Rowlandius potiguar.
Uma das espécies descobertas é a Rowlandius Itaoca (foto destaque), conhecida exclusivamente na Caverna de Pedra, no município de Martins (RN). O nome faz referência à própria caverna: itaoca significa casa de pedra em Tupi, língua indígena. A caverna é uma unidade de conservação e está localizada dentro do Monumento Natural Cavernas de Martins (Mona Martins). Os cuidados com a preservação do local são feitos pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema).
Apesar da descoberta, os pesquisadores destacam não ter certeza sobre o Rowlandius Itaoca habitar apenas essa caverna. Outras populações podem existir em cavernas próximas que ainda não foram exploradas. Serão feitos novos estudos e coletas para compreender a distribuição da espécie e entender possíveis ameaças. A outra nova espécie identificada é o Rowlandius Tybykyra, encontrada em 15 cavernas da formação Jandaíra, no Rio Grande do Norte.
Um mundo subterrâneo

Rowlandius Tybykyra, espécie encontrada em 15 cavernas do Rio Grande do Norte
A maioria das cavernas do Rio Grande do Norte está nos calcários da formação Jandaíra, uma área importante para a biodiversidade subterrânea por concentrar uma grande diversidade de seres vivos, que se adaptam a esse ambiente. A própria pesquisa de Origilene Dantas já mostrava que a região guarda uma riqueza de organismos ainda pouco conhecida pela ciência.
O cenário ganha uma proporção maior quando se considera a quantidade de cavernas no estado. Dados do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav/ICMbio) indicam que o RN tem cerca de 1.424 cavernas oficialmente registradas até maio de 2025. O estado está entre os que concentram o maior número de cavidades conhecidas no Brasil.
O estudo sobre os esquizômidos mostra como a compreensão sobre esses ambientes podem mudar conforme novas áreas são estudadas. Para os pesquisadores, o resultado do estudo também reforça a urgência da preservação desses animais e de ampliar o conhecimento dessas cavernas.
Novo nicho da biodiversidade da Caatinga

Equipe de pesquisadores formada por profissionais de diferentes áreas do conhecimento
Para Origilene Dantas, a descoberta revela uma parte minúscula da diversidade que pode existir nos ambientes subterrâneos da Caatinga. As cavernas estão localizadas em um território semiárido do Rio Grande do Norte e Ceará e, por este motivo, oferecem condições ambientais mais estáveis do que a superfície, sendo um abrigo para diversos organismos.
“Conhecer quais espécies existem nesses ambientes é um passo fundamental para podermos protegê-las”, explica a pesquisadora. Segundo a bióloga, uma área de conservação só é reconhecida como tal quando se sabe quais organismos vivem naquele ambiente e quais são as suas necessidades. O conhecimento sobre as novas espécies descobertas ainda é inicial.
A pesquisa também põe em destaque a importância da colaboração mútua entre diferentes áreas do conhecimento. O trabalho envolveu especialistas em taxonomia e sistemática, pesquisadores de ambientes cavernícolas e equipes responsáveis pela sequência das amostras e contou também com a colaboração do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas do RN (Cecav-RN).
Mais do que a descoberta de novas espécies, foi também encontrado um novo nicho da biodiversidade da Caatinga. Um lugar em que grande parte da vida fica no subterrâneo, cada espécie descoberta destaca um ponto crucial no processo: a proteção e o cuidado com aquilo que faz o mundo existir.
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