Padre Júlio Lancellotti entre a reitora da Cicilia Maia eo bispo dom Francisco
Por Amina Costa / Jornal de Fato
Referência nacional na defesa da vida e da dignidade das pessoas em situação de rua, o padre Júlio Lancellotti visita Mossoró pela primeira vez nesta semana e cumpre uma programação intensa de atividades religiosas e sociais. Uma dessas atividades foi a visita às instalações da futura Casa da Esperança, projeto que a Diocese de Mossoró entregará até o fim do ano para acolher a população em situação de rua, localizado na região do Alto do Louvor, no bairro Bom Jardim.
Após a visita às instalações, que aconteceu na manhã desta terça-feira, 9, padre Júlio Lancellotti avaliou o projeto Casa da Esperança como uma iniciativa de construção coletiva, destacando o caráter participativo que deve marcar sua atuação. Ele destacou ainda que o segredo do acolhimento está em ouvir as necessidades reais de quem vive nas ruas.
“Acredito que vai ser uma casa de acolhimento, de discernimento, de construção coletiva, participativa, que vai acolher os irmãos e irmãs em situação de rua, mas sobretudo vai acolher muitos parceiros e parceiras para participarem juntos dessa esperança que vai ser tecida a muitas mãos. O acolhimento não é aquilo que nós podemos oferecer, mas aquilo que eles necessitam que seja oferecido. Já existe uma preocupação de saber quem são essas pessoas, como acolhê-las, e construir com elas”, disse padre Júlio, durante entrevista concedida à Rádio Rural.
Ao ser questionado sobre o que mais chamou a atenção dele na realidade das pessoas em situação de rua em Mossoró, o padre disse que é o fato de que, numericamente, a população de rua ainda é considerada pequena, em relação a outras cidades do país e que ainda é possível ter soluções viáveis para que essas pessoas tenham dignidade em suas vidas.
“Mossoró é uma cidade que é uma rota de passagem, e o que chama atenção é que o número ainda é um número administrável. Não é um número como São Paulo, que chega a 100 mil pessoas na rua. Será que a cidade não dá conta de dar uma resposta para 250 a 300 pessoas? De ouvir as diferentes necessidades? Nós temos que encontrar diferentes respostas para uma população que não é homogênea. É uma população heterogênea. É uma população muito diversificada. E que todos precisam das mesmas coisas, que é o básico para se viver”, disse.
Em sua fala, o padre destacou ainda a necessidade de se trabalhar a equidade e não a igualdade. “Nós lutamos muitas vezes por igualdade, quando na verdade, biblicamente, o que se propõe é a equidade. Equidade é dar a cada um o que ele necessita. Quem está com sede, necessita de mais água do que quem não está. Quem está com fome necessita rapidamente ser alimentado do que aquele que está saciado. Quem está com frio precisa de mais agasalho do que aquele que não está com frio. Quem está abandonado precisa de mais presença do que aquele que tem a quem pertença. Então a equidade é dar a cada um o que ele necessita e não a todos a mesma coisa”, refletiu.
Conhecido por afirmar que “a rua não é lugar de viver”, o sacerdote refletiu sobre a lógica de descarte que marca o sistema social e econômico atual e reforçou a importância da Casa da Esperança como sinal de resistência. “Com todo o desenvolvimento tecnológico, a desigualdade não diminuiu. Pelo contrário, ela mata. A Casa da Esperança representa esse apelo do Papa Francisco de que a Igreja seja como um hospital de campanha: acolher os feridos, os que ficaram pelo caminho. É um trabalho exigente, que implica estar do lado daqueles que são considerados perdedores e rejeitados”, declarou.
Questionado sobre os obstáculos enfrentados na luta pela dignidade da população em situação de rua, padre Júlio ressaltou que se trata de uma luta histórica. “Eu não espero ver os resultados que busco. Estou com 76 anos e sei que não verei. Mas tenho muito claro que quem está do lado dos desprezados será desprezado, quem está do lado dos rejeitados será rejeitado. Isso é natural, não posso esperar o contrário. Como diz o ditado: quem sai na chuva é para se molhar”, disse.
O sacerdote também criticou o descumprimento da ADPF 976 do Supremo Tribunal Federal, que garante direitos básicos às pessoas em situação de rua. “Uma ADPF tem força de lei e deve ser obedecida. No entanto, em São Paulo, no estado de São Paulo e em boa parte do Sudeste, isso não é cumprido. Infelizmente, é mais um obstáculo que enfrentamos na luta pela dignidade”, concluiu.
Após a entrevista, a agenda de padre Júlio seguiu durante a tarde, quando se reuniu com lideranças religiosas na Cúria Diocesana, presidiu missa na Catedral de Santa Luzia e, à noite, participou de um momento de convivência e escuta junto à população em situação de rua, na Praça do Museu Lauro da Escóssia. A agenda se estende até esta quarta-feira, 10, quando ele se encontrará com o clero, seminaristas e religiosas da Diocese.

Padre Júlio Lancellotti visita local onde está sendo instalada a Casa da Esperança de Mossorpo
Casa da Esperança vai acolher população em situação de rua e oferecer serviços básicos
Mossoró, a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, ocupa o terceiro lugar no estado em número de pessoas em situação de vulnerabilidade, em especial as que vivem em situação de rua. Grande parte dessa população está concentrada na região central, em praças como a Vigário Antônio Joaquim, conhecida como Praça da Catedral, e a Praça do Museu Histórico Lauro da Escóssia.
Para enfrentar essa realidade, a Diocese de Mossoró implantará ainda este ano a Casa da Esperança, um espaço voltado ao acolhimento humanizado da população em vulnerabilidade social. O projeto vai oferecer refeições, banhos, espaço para lavagem de roupas e, além disso, assistência social, espiritual, médica, psicológica e jurídica.
A iniciativa busca garantir dignidade, cidadania e melhores condições de vida às pessoas em situação de rua. Mais do que suprir necessidades imediatas, a Casa da Esperança pretende ser um espaço de convivência, fortalecimento da autoestima e reconstrução de trajetórias, reafirmando o compromisso da Igreja com aqueles que mais necessitam.
Deputado propõe título de cidadão potiguar ao padre Júlio Lancellotti
A deputada estadual Isolda Dantas propõe título de cidadão potiguar ao padre Júlio Lancellotti. O pedido de concessão foi protocolado nesta terça-feira, 9. O religioso, que se encontra cumprindo agenda em Mossoró, é referência na defesa da dignidade das pessoas em situação de rua, a partir do Projeto Belém em São Paulo.
Na opinião da parlamentar, “o título é o reconhecimento à grandeza de uma vida consagrada à fé, à justiça social e ao cuidado com os mais marginalizados”. Isolda ressalta que há quatro décadas o Padre Júlio dedica sua vida à garantia de direitos e à promoção da dignidade dos mais vulneráveis.
“Padre Júlio é uma referência de coragem e compromisso com a vida dos que mais sofrem. É justo que o Rio Grande do Norte, um vanguardista das lutas sociais, reconheça sua luta e acolha quem tanto acolhe como um de nós”, afirmou a deputada Isolda Dantas.
Nascido em São Paulo, Padre Júlio Lancellotti é teólogo, pedagogo e ativista social, coordenador da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo. Por sua atuação, já recebeu inúmeras premiações e homenagens, sendo uma das vozes mais respeitadas no Brasil e no mundo na luta pelos direitos humanos.
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