Construtoras relatam dificuldades para formar equipes completas, especialmente para funções como pedreiro, servente, pintor, eletricista e outros serviços especializados. Na prática, a escassez de trabalhadores reduz o ritmo de execução das obras
Construtoras relatam dificuldades para formar equipes completas para obras
Por Ismael Sousa / Especial
A expansão da construção civil em Mossoró esbarra em um problema que começa a atingir diretamente o andamento dos empreendimentos: a falta de mão de obra. Construtoras relatam dificuldades para formar equipes completas, especialmente para funções como pedreiro, servente, pintor, eletricista e outros serviços especializados. Na prática, a escassez de trabalhadores reduz o ritmo de execução, dificulta o cumprimento dos cronogramas e pode provocar atrasos e prejuízos às empresas.
O problema vem sendo identificado pelo setor há pelo menos dois anos e ganhou espaço nas discussões entre empresários, entidades de representação e órgãos públicos. Em junho de 2025, o Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte, a Federação das Indústrias do Estado (FIERN) e o Sinduscon Oeste discutiram estratégias para ampliar a empregabilidade e enfrentar o déficit de mão de obra qualificada. Na ocasião, o próprio presidente do Sinduscon Oeste, Pedro Escóssia, classificou a escassez como um dos principais desafios da construção civil.
Para o empresário Einstein Preston, da Castel Construções, a dificuldade já é sentida dentro dos canteiros de obras de Mossoró, principalmente na contratação de pedreiros e serventes. “A falta de pedreiro e servente tem afetado as obras e isso tem trazido essa dor de cabeça. As pessoas não querem mais ser pedreiro. Já se cogitou até mudar o nome, às vezes as pessoas não têm noção do que é e se sentem desvalorizadas. A realidade de hoje é de termos pedreiros e serventes ganhando muito bem em obra”, disse Preston.
Segundo o empresário, outro obstáculo aparece no momento da formalização do trabalhador. Ele afirma que algumas empresas encontram profissionais disponíveis, mas enfrentam resistência para a contratação com carteira assinada por parte de trabalhadores que recebem benefícios sociais. “A maior dificuldade é eles aceitarem que assinem a carteira. Porque muitos dependem de auxílios do governo. Então a gente hoje tem essa dificuldade gigante por conta do auxílio”, disse Preston.
O presidente do Sinduscon Oeste, Pedro Escóssia, afirma que a dificuldade deixou de ser restrita a determinadas funções e passou a atingir praticamente toda a cadeia produtiva. Segundo ele, o cenário é de um verdadeiro “apagão” de mão de obra.
“O Sinduscon reconhece que está faltando mão de obra. Não só em Mossoró, mas no Brasil todo. Trazendo para nossa realidade, nós estamos vivendo um verdadeiro apagão de mão de obra. Não é só servente, nem pedreiro, é em todas as funções. Não tem gente para trabalhar na construção civil. E, sim, está prejudicando o andamento das obras. Não conheço uma empresa de construção civil de Mossoró que não esteja com vagas em aberto. A última vez que fizemos um levantamento, tínhamos na faixa de 46 empresas associadas na época, há mais de um ano, e somente essas empresas, elas tinham uma demanda de mil vagas em aberto para atender aos seus cronogramas”, afirmou.
Falta mão de obra no momento de crescimento do imobiliário
A dificuldade ocorre justamente quando o mercado imobiliário e o número de empresas ligadas ao setor crescem na cidade. Em março de 2025, durante a primeira Feira da Construção Civil do Sinduscon Oeste, a Prefeitura informou que o número de empresas associadas ao sindicato havia passado de 18 para mais de 47 em dois anos. O crescimento foi apresentado como um reflexo da expansão dos empreendimentos residenciais, comerciais e de infraestrutura em Mossoró.
A própria ConstruSind voltou a mostrar a dimensão do setor em 2026. A segunda edição da feira cresceu cerca de 50% em relação à primeira e reuniu 85 estandes em uma área de 1.850 metros quadrados, com participação de empresas e profissionais de diferentes segmentos da construção civil.
Para Escóssia, um dos fatores que agravam o problema é a dificuldade de atrair trabalhadores mais jovens. A construção civil passou a disputar mão de obra com atividades consideradas menos desgastantes ou com maior flexibilidade de horário.
“Os jovens não querem ingressar na área da construção civil. Não se veem serventes querendo entrar na atividade. Aliado a essa falta de vontade, temos uma concorrência muito grande. Sabemos que a atividade na construção civil é árdua, pesada e cansativa, e concorre de trabalhar com caixa em supermercado, como Uber, como entregador de fast-food, na área da logística, ganhando a mesma coisa, ou até mesmo, para trabalhar não tão pesado como na construção civil”, disse.
Sinduscon decide investir em formação profissional
Diante da dificuldade para preencher as vagas, o Sinduscon Oeste passou a investir em formação profissional em parceria com o Senai. Em junho de 2025, foi iniciado o projeto Edificando o Futuro, com cursos gratuitos voltados à preparação de trabalhadores para a construção civil.
A primeira formação foi para pedreiro de alvenaria, com 160 horas, divididas entre aulas teóricas e atividades práticas em canteiros de empresas associadas. Os participantes também passaram a contar com cesta básica e inclusão no banco de talentos do sindicato.
“Em parceria com o Senai, a gente treina com parte teórica, e depois vai para um campo para fazer a parte prática. Já estamos no terceiro módulo, formando mais 60 profissionais. Os primeiros e segundo módulos nós capacitamos com curso de pedreiro, e no terceiro, de pintor. Abrimos 40 vagas, mas só tivemos 28 inscritos e hoje nós estamos com 13 participantes”, afirmou Pedro Escóssia.
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