Terça-Feira, 19 de May de 2026

Postado às 09h45 | 19 May 2026 | redação Mederi: gestão Allyson pagou R$ 3,3 mi à DisMed; R$ 833 mil seria direcionado à propina

A rede de ligações exposta pela Polícia Federal mostra como se apresentava a configuração de um esquema que ficou especializado em desviar recursos da saúde, tudo aos olhos de uma suposta legalidade e que se voltava à compra de medicamentos

Crédito da foto: Reprodução Operação Mederi descortinou esquema de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró

Por Edilson Damasceno / Jornal de Fato

A literatura apresenta sinais claros e evidentes de que a arte imita a vida. E vice-versa. No caso em questão, alude-se ao poema “A Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, para ilustrar a trama que se configura a partir do entrelaço que marca a narrativa exposta pelo poeta e fazendo alusão direta aos envolvidos e que figuram na investigação exposta pela Operação Mederi: todo mundo ama todo mundo e, no final, o serviço público acaba ficando na pindaíba.

A rede de ligações exposta pela Polícia Federal mostra como se apresentava a configuração de um esquema que ficou especializado em desviar recursos da saúde, tudo aos olhos de uma suposta legalidade (por meio de licitação ou adesão à Ata de Registro de Preços de municípios tidos como integrantes do esquema) e que se voltava à compra de medicamentos.

O jornalista Dinarte Assunção, no seu endereço virtual www.blogdodina.com, tem divulgado particularidades que envolvem a operação feita pela Polícia Federal em 27 de janeiro deste ano e as consequências do trabalho feito pela PF em Mossoró e que atinge outros municípios do Rio Grande do Norte, um governadorável e seus apoiadores. Fala-se aqui do ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil), além dos prefeitos de Mossoró (Marcos Medeiros), Pau dos Ferros (Marianna Almeida) e Apodi (Luís Sabino).

A conexão de tudo com todos aparece a cada leitura do relatório da Polícia Federal e que embasa processo que tramita no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5). Consta do mais recente material publicado pelo jornalista Dinarte Assunção a configuração de que conversas e acordos podem ter acontecido diretamente na Prefeitura de Mossoró. Tanto que existem provas no relatório da PF de diálogos dos sócios da empresa DisMed nesse sentido e fala-se em saques, envio de pix e cobrança.

Maycon Lucas Zacarias Soares conversa com Oseas Monthalggan Fernandes Costa. Os dois são cunhados e o segundo é sócio-administrador da empresa DisMed Distribuidora de Medicamentos. O teor da conversa segue o esquema já publicizado pela Polícia Federal. De acordo com a PF, Oseas estava na Prefeitura de Mossoró e Maycon teria ido ao banco sacar dinheiro fruto do pagamento, das Prefeituras, de medicamentos adquiridos.

Mensagens trocadas por WhatsApp indicam assinatura de documentos, entrega de envelope e também de dinheiro, além de orientações sobre depósito em conta poupança e Pix. Ainda conforme a Polícia Federal, em seis meses – período do ano de 2024 – entre maio a outubro, a DisMed movimentou cerca de R$ 8,15 milhões. O dinheiro corresponde a pagamento das Prefeituras. Desse total, a Polícia Federal afirma que houve saque de R$ 2,21 milhões.

A análise da Polícia Federal aponta para o que se chamou de “Matemática de Mossoró”. Em áudio captado pela PF, Oseas Monthalggan faz a divisão: “Fica cento e quarenta (R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento (100%). Dos cento e quarenta ele ganha setenta (R$ 70.000,00). Setenta com sessenta é meu, cento e trinta (R$ 130.000,00). Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil (R$ 100.000,00) a ALLYISON e a FÁTIMA, que é dez por cento (10%) de FÁTIMA e quinze por cento (15%) de ALLISSON. Só ficou trinta mil (R$ 30.000,00) pra a empresa!”

Para ter ideia do volume que entrou na DisMed e somente da Prefeitura de Mossoró, a Polícia Federal aponta em relatório que no período de seis meses (maio a outubro de 2024) o pagamento de R$ R$ 3.332.710,27. Deste montante, o total de propina pago aos facilitadores do esquema chegou a R$ 833.177,57. Isso em apenas seis meses.

 

PF: negócio da DisMed era baseado em propina

A empresa DisMed Medicamentos apresentou um salto considerável na sua contabilidade. Saiu de praticamente do zero em 2021, ano em que foi criada, para um faturamento que passou dos R$ 11 milhões em 2023. Em apenas dois anos de funcionamento, apresentou uma rentabilidade considerável.

O sócio Oseas Monthalggan, de acordo com o relatório da Polícia Federal, sai de um patrimônio rentável e mensal de R$ 4.049,05 em 2021. Antes ele havia declarado patrimônio de R$ 21 mil. Ele foi vereador da cidade de Upanema.

A Polícia Federal informou, no relatório, que em cinco anos, de junho de 2018 a maio de 2023, a empresa DisMed movimentou em torno de R$ 65,43 milhões. A PF indica também que o contrato da Prefeitura de Mossoró envolve o Fundo Municipal de Saúde. E que em torno de onze municípios fariam negócios com a DisMed.

A Polícia Federal também informa que sócios da DisMed admitem, em conversas que foram captadas, a existência de uma rede de propina. Ou seja: o negócio era baseado em esquema que previa a liberação de percentuais para os facilitadores dos contratos.

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