Polícia Federal desbaratou uma estrutura criminosa que desviou recursos da saúde pública em Mossoró, através de contratos fraudulentos e não entrega de medicamentos contratados. O ex-prefeito Allyson Bezerra é colocado no "topo" do esquema pela PF
Ex-prefeito Allyson Bezerra é investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mederi
Por Edilson Damasceno / Jornal de Fato
O sol começava a esquentar o dia 27 de janeiro de 2026, um incentivo, indiretamente, à prática esportiva no condomínio Ninho, residencial de luxo na zona Leste de Mossoró. Tudo seguia o ritmo habitual. Mas por volta das 7h a tranquilidade foi tomada por uma presença repentina na área: a Polícia Federal parou na frente da casa do então prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) para iniciar a maior ofensiva contra prática de corrupção na Prefeitura de Mossoró e de outros cinco município, a Operação Mederi.
Passaram-se quatro meses de lá para cá. E até agora nenhuma explicação plausível foi apresentada à população mossoroense sobre o escândalo que envolve empresários, ex-prefeito, prefeito e uma rede de apoio organizada para que tudo seguisse o fluxo diante de esquema voltado à compra de medicamentos.
O jornalista investigativo Dinarte Assunção, do Blog do Dina (www.blogdodina.com) tem acompanhado o desdobramento da Operação Mederi, publicizando o relatório feito pela Polícia Federal e que fundamenta ação que tramita no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5). O jornalista informou que produziu mais de 30 matérias jornalísticas e teve que ler as escutas feitas pela PF, decisões judiciais e relatórios.
O aprofundamento jornalístico de Dinarte Assunção envolve apuração que se volta para cinco frentes criminais, sendo fraude em licitação, corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Em todas as frentes, conforme o trabalho divulgado pelo jornalista, o ex-prefeito Allyson Bezerra é descrito como “chefe da estrutura criminosa.” São termos que aparecem na investigação da Polícia Federal.
Apesar de ter ganhado corpo em 27 de janeiro, em Mossoró, tido como o epicentro da corrupção, a Polícia Federal abriu o inquérito da Operação Mederi em 11 de novembro de 2023. Exatos 26 meses e 16 dias depois vem o que impacta o Rio Grande do Norte: um prefeito da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte e pré-candidato ao Governo do Estado surge como suposto chefe da estrutura que causa danos consideráveis ao serviço público. A Operação constatou de tudo: de conversas sobre divisão do lucro a dinheiro guardado em isopor.
Em um apanhado de 32 matérias investigativas/jornalísticas, o Blog do Dina destrinchou o que seria a Operação Mederi: uma investigação da Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União e acompanhamento do Ministério Público Federal, sobre desvio de recursos da saúde no Rio Grande do Norte e que tem eixo em Mossoró, sede da empresa DisMed e que representa (a cidade) 59% do lucro abrangendo a licitação envolvendo medicamentos.
A investigação, toda ela, é da Polícia Federal e autorizada pelo desembargador federal Rogério Fialho Moreira (do TRF5). O alvo central é o ex-prefeito Allyson Bezerra, apontado como chefe do esquema. O pivô dessa organização é a empresa DisMed Distribuidora de Medicamentos.
A investigação segue um inquérito aberto em 24 de novembro de 2023 e que teve fase ostensiva em 27 de janeiro de 2026, quando 35 mandados de busca e apreensão foram realizados em cinco cidades do Rio Grande do Norte, a saber: Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel e José da Penha.
Estas cidades, de acordo com a Polícia Federal, têm contratos com a DisMed, prefeitos e ou auxiliares investigados. Atualmente a investigação segue seu fluxo, sem denúncia recebida e nem condenação. O processo segue em sigilo parcialmente levantado e somente os envolvidos teriam acesso ao processo. Em tese. (leia abaixo)

Polícia Federal encontrou dinheiro em caixa de isopor
O que já mudou: as consequências
Na Justiça: a decisão de 30 de março bloqueou bens e valores em mais de R$ 13,3 milhões e manteve tornozeleiras e fianças para os investigados.
Na administração: a DisMed e a Drogaria Mais Saúde foram desclassificadas de licitação em Mossoró. O faturamento da empresa despencou 87% entre janeiro e fevereiro de 2026.
Na política: o TCE-RN recomendou a reprovação das contas de 2021 de Allyson, o que pode torná-lo inelegível. Allyson renunciou à Prefeitura; o vice, Marcos Medeiros — também investigado —, assumiu em 27 de março de 2026. (Blog do Dina)

Polícia Federal realizou busca e apreensão no duplex de Allyson Bezerra
A linha do tempo da Operação Mederi
24/11/2023 — A PF abre o inquérito da Operação Mederi.
22/1/2026 — O desembargador Rogério Fialho Moreira determina o fim do sigilo após o cumprimento das medidas.
27/1/2026 — Fase ostensiva: 35 mandados de busca e apreensão em cinco cidades.
3/2/2026 — DisMed e Drogaria Mais Saúde são desclassificadas de licitação em Mossoró.
23/2/2026 — O Blog do Dina publica “Quem é Fátima?”.
26/2/2026 — O TCE-RN recomenda a reprovação das contas de 2021 de Allyson.
3/3/2026 — A PF estima R$ 833 mil em propinas só em Mossoró.
27/3/2026 — Marcos Medeiros assume a Prefeitura de Mossoró após a renúncia de Allyson.
30/3/2026 — O desembargador julga os pedidos das defesas; bloqueio de R$ 13,3 milhões.
19/4/2026 — Reportagem revela a planilha de R$ 19,6 milhões apreendida com Allyson.
22/5/2026 — Os irmãos Lima entram com habeas corpus no STJ pedindo para lacrar o material da operação. (Blog do Dina)
PF apreendeu planilha de controle de R$ 19,6 mi em apartamento de Allyson Bezerra, em Natal
Em um vasto material publicado em seu blog, o jornalista Dinarte Assunção apresenta que as investigações feitas pela Polícia Federal apontam o então prefeito Allyson Bezerra como chefe de uma estrutura que estaria dividida em três níveis. No superior estariam Allyson e o seu então vice-prefeito (hoje prefeito) Marcos Antonio Bezerra Medeiros. Na escala mediana estariam secretários e diretores financeiros e, na parte inferior da pirâmide surgem fiscais (que atestariam falsamente a entrega dos medicamentos).
De acordo com a investigação, a Polícia Federal teria constatado que a anuência do então prefeito Allyson Bezerra seria primordial, “essencial para a manutenção do sistema”. Com isso, entende-se que tudo partia dele e tudo passaria, também, por ele. “Parte do dinheiro, segundo a apuração, seria guardada para financiar campanhas eleitorais — inclusive a pretensão de Allyson de disputar o Governo do RN”, informa o jornalista Dinarte Assunção em seu blog.
Com essa particularidade tem-se uma expressão que ganhou corpo, que é a “Matemática de Mossoró”, na qual surge, nas investigações, o rateio do que a PF identifica como propina, sendo 15% e 10%. O primeiro percentual destinava-se a Allyson Bezerra e o segundo, a uma mulher que a PF identifica como “Fátima”, que segue ainda em processo de investigação.
Em áudio captado por meio de escuta autorizado pela Justiça, a Polícia Federal conseguiu identificar que 50% do contrato viraria mercadoria de baixo custo. Da outra metade, de acordo com o que publicou o Blog do Dina, 25% seriam para a propina repartida entre dois beneficiários, sendo 15% para Allyson e 10% para uma mulher que aparece apenas como “Fátima”.
O suposto esquema liderado pelo ex-prefeito Allyson Bezerra, ainda segundo a PF, dividia sua estratégia de maneiras distintas para guardar o dinheiro e não ser pego pelo rastreio/controle do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
O relatório da Polícia Federal descreve, conforme divulga o Blog do Dina, técnicas que se dividem entre sofisticadas e rudimentares, que vão desde guardar dinheiro em caixas de isopor a depósitos feitos em conta pertencente a uma menor de idade e uma holding, no caso a empresa MS Empreendimentos.
Essa empresa teria sido criada visando à blindagem patrimonial. Para escapar do COAF, saques teriam sido feitos fracionados, com 22 retiradas de R$ 49 mil, totalizando R$ 1,09 milhão.
A afirmativa de que o então prefeito Allyson Bezerra estaria no comando do esquema veio quando a Polícia Federal apreendeu, no apartamento dele em Natal, uma planilha que indicava o controle de uma movimentação vultuosa em dinheiro: R$ 19,6 milhões. Além disso, a Polícia Federal apreendeu na casa de Almir Mariano, então secretário de Saúde de Mossoró, a quantia de R$ 57,5 mil em maços espalhados em mochilas e gavetas.
Todo esse esquema de desvio de verba pública da saúde, com base nas investigações, tem um aspecto que se destaca: o prejuízo humano. Embora não se tenha dados sobre medicamentos vencidos em Mossoró, em Serra do Mel a Polícia Federal encontrou mil remédios, com um único dia de validade, para hipertensão. Um prejuízo estimado em R$ 4 milhões para o município.

Prefeito Marcos Medeiros, que substituiu Allyson na Prefeitura, também é incestigado
Núcleo da Prefeitura de Mossoró
- Allyson Leandro Bezerra Silva (Allyson Bezerra) — ex-prefeito (União Brasil), apontado pela PF como chefe da estrutura criminosa e suposto beneficiário de 15% das propinas. Recusou-se a entregar senhas de celulares à PF e omitiu itens apreendidos ao relatar a operação nas redes. Renunciou ao cargo; Pré-candidato ao Governo do RN. Defende-se dizendo que a investigação se baseia em “diálogos de terceiros” sem fato que o vincule diretamente.
- Marcos Antônio Bezerra de Medeiros (Marcos Medeiros, “Marco”) — vice de Allyson; assumiu a Prefeitura em 27 de março de 2026. A PF o descreve como “ponto de contato” entre a DisMed e a Prefeitura e como “provavelmente o atual vice-prefeito… destinatário de valores a título de propina”. A defesa nega irregularidades.
- Almir Mariano — ex-secretário de Saúde de Mossoró (fev-ago/2025). Teve R$ 57,5 mil em maços de dinheiro apreendidos em casa. A PF o trata como “gerente administrativo que validava formalmente os contratos e pagamentos fraudulentos”.
- Poliana Rezende Dantas — diretora financeira da Secretaria de Saúde, nomeada por portaria de Allyson em janeiro de 2025. Trocava mensagens com um dos sócios da DisMed 23 dias antes da nomeação. O juízo aponta “impossibilidade de execução do esquema sem sua participação ou omissão deliberada”.
Núcleo empresarial — DisMed e Drogaria Mais Saúde
- Oseas Monthalggan Fernandes Costa — sócio-administrador da DisMed (50%), descrito pela PF como principal operador do esquema. Autor das frases-chave nas escutas sobre a divisão das propinas.
- Maycon Lucas Zacarias Soares — sócio da DisMed (50%), cunhado de Oseas. Transferiu suas quotas para a holding MS Empreendimentos. A PF encontrou em sua casa uma pistola Taurus .380 e 22 munições — foi conduzido por posse irregular de arma.
- José Moabe Zacarias Soares (Moabe) — sócio da DisMed, também ex-vice-prefeito de Serra do Mel. Aparece nas escutas discutindo pagamentos de propina.
- Raimundo Wandecy Campelo Gurgel (“Nenén”) — ex-sócio e funcionário da DisMed. Autor da metáfora “o pulmão enchia de ar” sobre a dependência de Mossoró.
- Roberta Ferreira Praxedes Costa — esposa de Oseas e sócia da Drogaria Mais Saúde; investigada.
- Rayca Mariana Praxedes Fernandes — filha de Oseas. Sua conta bancária foi usada para movimentar valores que a PF aponta como lavagem.
- Vitória Cibele Pinheiro Bezerra Soares — esposa de Maycon, ex-sócia da DisMed. A PF diz que ela “atuava no armazenamento e repasse de numerário”.
- Sidney Carlos de Melo — representante comercial intermediário da DisMed.
Núcleo de agentes públicos em outras cidades
- Leandro Michel do Rego Lima — prefeito de São Miguel desde 2025, médico. A PF descreve um esquema para “recompor” o salário que ele tinha como médico (cerca de R$ 100 mil por mês). Impetrou habeas corpus no STJ junto com o irmão pedindo para lacrar o material da operação.
- Lincoln Micaele Rêgo Lima — irmão de Leandro. A PF o trata como “principal articulador” do direcionamento de licitações em São Miguel e do pagamento de propina. A defesa contesta o cargo de chefe de gabinete que a PF lhe atribui, alegando que ele “não possui qualquer vínculo com a municipalidade”.
- Ana Jarvis de Souza Mafaldo Gomes (“A Chefona”) — chefe de gabinete da Prefeitura de José da Penha e irmã do prefeito. Apontada como quem assumiu o controle da propina e afastou o pregoeiro.
- Fabiano Ferreira Alves — pregoeiro de José da Penha, afastado pela Chefona, mas que, segundo as escutas, seguia cobrando sua parte.
- João Evaristo Peixoto — prefeito de Paraú; investigado, teve fiança reduzida de R$ 100 mil para R$ 30 mil pelo desembargador.
Outras gestões onde a PF aponta que o esquema “se espalhou”
Marianna Almeida — prefeita de Pau dos Ferros, que declarou apoio público a Allyson.
Luis Sabino da Costa Neto (Sabino Neto) — prefeito de Apodi (MDB), idem.
Alan Jefferson da Silveira Pinto — ex-prefeito de Apodi (2021-2024), signatário dos primeiros contratos da DisMed no município. Os três negam irregularidades.
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