Ficou claro no primeiro debate entre os candidatos ao Governo do RN que a Operação Mederi será tema recorrente da campanha eleitoral. Os adversários de Allyson Bezerra, que é o principal investigado pela Polícia Federal, vão explorar o escândalo
Allyson Bezerra é o principal investigado no âmbito da Operação Mederi
Da Redação do Jornal de Fato
Ficou claro no primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte, promovido pela Band Natal, que a Operação Mederi será tema recorrente da campanha eleitoral deste ano. Os adversários de Allyson Bezerra (União Brasil), que é o principal investigado pela Polícia Federal, vão explorar o escândalo de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró.
O ex-prefeito, que é apontado pela PF no “topo” do esquema criminoso, mostrou-se desconfortável quando o tema foi explorado pelos adversários. Allyson não teve respostas para perguntas feitas principalmente por Álvaro Dias (PL) e Cadu Xavier (PT) e passou grande parte do debate tentando se esquivar do tema.
Álvaro Dias foi o primeiro a explorar a Operação Mederi ao perguntar: “Candidato Allyson, por que você não entregou as senhas dos seus celulares que foram apreendidos pela Polícia Federal durante o mandado de busca e apreensão em sua residência?”
Allyson não respondeu à pergunta, limitando-se a afirmar que é inocente. Álvaro, por sua vez, insistiu: “Responda, candidato, por que você negou as senhas pedidas pela Polícia Federal?” Sentindo-se acuado, o ex-prefeito de Mossoró encontrou uma saída ao desafiar os adversários: “Se a Polícia Federal não encontrar nada nos meus celulares, os senhores retiram as suas candidaturas?” Álvaro e Cadu deram o silêncio como resposta.
Na prática, o desafio de Allyson Bezerra não funciona, uma vez que é pouco provável que a Polícia Federal se manifeste sobre a Operação Mederi durante a campanha eleitoral. A única possibilidade de a PF ou a Justiça Federal se posicionar no decorrer das eleições é se houver um fato novo que exija uma decisão urgente.
Cadu Xavier percebeu o desconforto de Allyson com a Operação Mederi e provocou sempre que tinha a palavra. “Sou ficha limpa, nunca tive a Polícia Federal na minha porta”, atiçou de olhos fixos em Allyson Bezerra. “Pra mim, a política vale para mudar a vida das pessoas, e não para mudar a vida dos políticos”, completou.
Contra-ataque
Para sair das cordas, Allyson confrontou Cadu Xavier. Ele apresentou documentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) e acusou o adversário de ser alvo de um processo relacionado a um reajuste concedido aos auditores fiscais em 2021, quando Cadu era secretário estadual de Tributação.
Allyson citou o processo nº 1708/2021 e afirmou que Cadu assinou uma resolução que teria provocado impacto superior a R$ 13 milhões durante a pandemia. O candidato disse ainda que Cadu teria aumentado “o próprio salário”.
Allyson afirmou que os autos confirmam que Cadu assinou, ao lado da então secretária de Administração, a Resolução Interadministrativa nº 355/2021, que reajustou em 12% a remuneração dos auditores fiscais, por meio da atualização da Unidade da Parcela Variável (UPV). A medida foi questionada pela Diretoria de Despesa com Pessoal do TCE-RN.
Cadu Xavier rebateu e considerou a acusação um “factoide”. Para Cadu, a estratégia de Allyson buscou gerar uma associação indevida de condutas para atenuar o impacto da investigação da Polícia Federal no âmbito da “Operação Mederi”.
A operação

Polícia Federal no duplex de Allyson Bezerra no dia 27 de janeiro de 2026
A Operação Mederi é uma investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) deflagrada em 27 de janeiro de 2026. Ela apura um esquema de desvio de recursos públicos da saúde, superfaturamento e fraudes em licitações em municípios do Rio Grande do Norte, com base em Mossoró.
O ex-prefeito Allyson Bezerra foi alvo de mandado de busca e apreensão. A Polícia Federal apreendeu dois celulares, aparelhos eletrônicos, entre outros materiais. Na decisão do desembargador Rogério Fialho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), com sede em Recife, Allyson é apontado como principal investigado.
No documento que autorizou a operação da Polícia Federal, Allyson é citado como no “topo da organização” e que havia se beneficiado com propina de 15% dos contratos de compra de medicamentos não entregues por meio da empresa DisMed Distribuidora. Allyson nega e afirma inocência.
Até aqui, a Polícia Federal já rastreou cerca de R$ 146 milhões em contratos e identificou mais de R$ 12 milhões sacados em espécie. O esquema era sustentado por meio de contratos fraudulentos com empresas fornecedoras de medicamentos, como a DisMed. Segundo a PF, os recursos desviados da saúde eram utilizados para pagamento de propinas. Além de 15% para Allyson, conforme consta na decisão da Justiça, outra pessoa identificada como “Fátima” recebia 10%.
Sete suspeitos seguem monitorados por tornozeleiras eletrônicas. Eles também tiveram contas bancárias e bens bloqueados por decisão da Justiça Federal.
Polícia Federal já rastreou R$ 146 milhões
A Polícia Federal (PF) já rastreou a existência de R$ 146 milhões, fruto do suposto esquema envolvendo a empresa DisMed Distribuidora de Medicamentos e pelo menos 22 Prefeituras do Rio Grande do Norte. O montante foi descoberto por meio do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e quebra de sigilo bancário dos envolvidos no ato. Segundo relatório da PF, a quantidade de dinheiro sacado em espécie é superior a R$ 12 milhões.
Estas informações foram divulgadas pelo jornalista Dinarte Assunção em seu endereço virtual (www.blogdodina.com). Ele tem acesso aos relatórios da Polícia Federal, bem como ao processo que tramita no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), cuja relatoria é do desembargador Rogério Fialho e segue os parâmetros relacionados à Operação Mederi.
De acordo com as investigações que integram o processo, a Operação Mederi tem sete acusados com suposto envolvimento direto e alguns usam tornozeleira eletrônica, além de outros que estariam diretamente envolvidos em um esquema que tem tirado o sono de muita gente na região do Oeste e Alto Oeste do Rio Grande do Norte.
Áudios, escutas e quebra de sigilo bancário traduzem a dimensão do que é considerado o maior esquema de corrupção do Rio Grande do Norte. De acordo com o que foi publicado pelo jornalista Dinarte Assunção, existe áudio de um dos investigados que afirma possuir o controle de mais de 15 Prefeituras no Estado. Isso com relação aos processos licitatórios. “Num dos áudios, um dos operadores resume sozinho o tamanho da coisa: “eu tenho umas 15 prefeituras”, descreve o jornalista em seu material.
A Prefeitura de Mossoró seria o epicentro, que, de acordo com a investigação da Polícia Federal e que consta do relatório enviado ao desembargador Rogério Fialho, seria o “pulmão do esquema”. Em outras palavras, sem o dinheiro relacionado à licitação para a compra de medicamentos em Mossoró que ficaria, boa parte, com os sócios da empresa DisMed, não teria como a empresa atrair novos clientes. No caso, novas Prefeituras.
O suposto esquema de corrupção envolvendo a empresa DisMed e Prefeituras da região ganhou notoriedade a partir de 27 de janeiro deste ano, quando a Polícia Federal realizou a Operação Mederi, cumprindo diversos mandados de busca e apreensão, atingindo em cheio políticos de representatividade estadual, como o ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) e o prefeito Marcos Bezerra (Republicanos). Ambos de Mossoró.
PF enxerga núcleos executores e empresariais durante investigação
De acordo com as investigações da Polícia Federal, alguns nomes são considerados cruciais para que o suposto esquema de desvio de verba da saúde fosse concretizado. A PF lista o ex-prefeito Allyson Bezerra como chefe da estrutura, sendo beneficiado com 15% das propinas.
Allyson Bezerra, quando alvo de mandado de busca e apreensão, recusou a fornecer senhas de seus equipamentos apreendidos e omitiu itens apreendidos ao relatar a operação nas suas redes sociais. Ele tem insistido na tese de que a investigação tem base em diálogos de outras pessoas e que não existiriam provas que o vinculem ao esquema.
Outro nome que estaria diretamente envolvido é o do prefeito Marcos Antônio Bezerra de Medeiros (Marcos Medeiros, “Marco”) — vice de Allyson. Ele assumiu a Prefeitura em 27 de março de 2026, com a renúncia de Allyson Bezerra. A Polícia Federal o descreve como “ponto de contato” entre a DisMed e a Prefeitura e como “provavelmente o atual vice-prefeito… destinatário de valores a título de propina”.
Além deles, o ex-secretário de saúde, Almir Mariano, é apontado como um dos apoios do esquema. Na casa dele a PF encontrou R$ 57,5 mil em maços de dinheiro. A PF o trata como “gerente administrativo que validava formalmente os contratos e pagamentos fraudulentos”. No eixo central ainda está Poliana Rezende Dantas, que era a diretora financeira da Secretaria de Saúde, nomeada por portaria de Allyson em janeiro de 2025. Trocava mensagens com um dos sócios da DisMed 23 dias antes da nomeação. O juízo aponta “impossibilidade de execução do esquema sem sua participação ou omissão deliberada”.
Fazem parte do que a PF chama de “núcleo empresarial” Oseas Monthalggan Fernandes Costa (sócio-administrador da DisMed). Ele é apontado como principal operador do esquema. Autor das frases-chave nas escutas sobre a divisão das propinas.
Além de Oseas, integram o núcleo empresarial Maycon Lucas Zacarias Soares — sócio da DisMed, cunhado de Oseas. A PF encontrou em sua casa uma pistola Taurus .380 e 22 munições. Ele foi conduzido por posse irregular de arma. Também aparece José Moabe Zacarias Soares (Moabe), Raimundo Wandecy Campelo Gurgel (“Nenén”), Roberta Ferreira Praxedes Costa (esposa de Oseas e sócia da Drogaria Mais Saúde), uma filha de Oseas que é menor de idade (sua conta bancária foi usada para movimentar valores que a PF aponta como lavagem), Vitória Cibele Pinheiro Bezerra Soares (esposa de Maycon, ex-sócia da DisMed e Sidney Carlos de Melo (representante comercial intermediário da DisMed).

Núcleo do esquema na Prefeitura de Mossoró apontado pela PF
- Allyson Leandro Bezerra Silva (Allyson Bezerra) — ex-prefeito (União Brasil), apontado pela PF como chefe da estrutura criminosa e suposto beneficiário de 15% das propinas. Recusou-se a entregar senhas de celulares à PF e omitiu itens apreendidos ao relatar a operação nas redes. Renunciou ao cargo; é candidato ao Governo do RN. Defende-se dizendo que a investigação se baseia em “diálogos de terceiros” sem fato que o vincule diretamente.
- Marcos Antônio Bezerra de Medeiros (Marcos Medeiros, “Marco”) — vice de Allyson; assumiu a Prefeitura em 27 de março de 2026. A PF o descreve como “ponto de contato” entre a DisMed e a Prefeitura e como “provavelmente o atual vice-prefeito… destinatário de valores a título de propina”. A defesa nega irregularidades.
- Almir Mariano — ex-secretário de Saúde de Mossoró (fev-ago/2025). Teve R$ 57,5 mil em maços de dinheiro apreendidos em casa. A PF o trata como “gerente administrativo que validava formalmente os contratos e pagamentos fraudulentos”.
- Poliana Rezende Dantas — diretora financeira da Secretaria de Saúde, nomeada por portaria de Allyson em janeiro de 2025. Trocava mensagens com um dos sócios da DisMed 23 dias antes da nomeação. O juízo aponta “impossibilidade de execução do esquema sem sua participação ou omissão deliberada”.
Núcleo empresarial — DisMed e Drogaria Mais Saúde
- Oseas Monthalggan Fernandes Costa — sócio-administrador da DisMed (50%), descrito pela PF como principal operador do esquema. Autor das frases-chave nas escutas sobre a divisão das propinas.
- Maycon Lucas Zacarias Soares — sócio da DisMed (50%), cunhado de Oseas. Transferiu suas quotas para a holding MS Empreendimentos. A PF encontrou em sua casa uma pistola Taurus .380 e 22 munições — foi conduzido por posse irregular de arma.
- José Moabe Zacarias Soares (Moabe) — sócio da DisMed, também ex-vice-prefeito de Serra do Mel. Aparece nas escutas discutindo pagamentos de propina.
- Raimundo Wandecy Campelo Gurgel (“Nenén”) — ex-sócio e funcionário da DisMed. Autor da metáfora “o pulmão enchia de ar” sobre a dependência de Mossoró.
- Roberta Ferreira Praxedes Costa — esposa de Oseas e sócia da Drogaria Mais Saúde; investigada.
- Rayca Mariana Praxedes Fernandes — filha de Oseas. Sua conta bancária foi usada para movimentar valores que a PF aponta como lavagem.
- Vitória Cibele Pinheiro Bezerra Soares — esposa de Maycon, ex-sócia da DisMed. A PF diz que ela “atuava no armazenamento e repasse de numerário”.
- Sidney Carlos de Melo — representante comercial intermediário da DisMed.
O que se sabe sobre a Operação Mederi
1 – Uma estrutura criminosa foi formada para desviar recursos da saúde pública por meio de contratos fraudulentos com as empresas DisMed Distribuidora de Medicamentos e Drogaria Mais Saúde, que têm como sócios os investigados Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares.
2 – No curso das investigações foi descoberta o que a PF chama de “Matemática de Mossoró”, que é a forma como os recursos desviados eram distribuídos. Diálogos interceptados pela PF revelam que Allyson Bezerra receberia 15% de propina e outra pessoa que está sendo investigada ficava com 10%.
3 – O vice-prefeito Marcos Bezerra (hoje prefeito) também é colocado pela PF no topo da estrutura criminosa. Os investigadores afirmam, com base nos áudios interceptados, que o dinheiro da propina seria para campanha eleitoral de Allyson Bezerra e futura campanha eleitoral de Marcos Bezerra.
4 – Almir Mariano, ex-secretário da Saúde e atual titular da Secretaria de Programas e Projetos da gestão Allyson Bezerra, é apontado pela PF como responsável pelas condições institucionais para o funcionamento do esquema criminoso. Em sua casa, a Polícia Federal encontrou dinheiro distribuído em pertences, mochilas e gavetas que somaram R$ 57.500,00.
5 – Atual secretária de Saúde, Morgana Dantas, segundo a PF, teria atuado no nível intermediário, garantindo as condições institucionais para o funcionamento do esquema.
6 - A Polícia Federal identificou uma conta ‘laranja’, em nome de uma estudante menor de idade, usada pelos operadores do esquema criminoso. Uma filha de Oseas Monthalggan e Roberta Ferreira Praxedes da Costa - mulher do sócio da DisMed e proprietária da Drogaria Mais Saúde, teve a conta bancária utilizada pelos pais para lavar dinheiro do esquema, segundo a investigação. Ela recebeu R$ 427 mil entre julho de 2022 e junho de 2023.
7 – As investigações apontam que o esquema movimentou R$ 13,5 milhões pagos a uma empresa fornecedora de medicamentos que, segundo a Polícia Federal, repassava vultosas propinas ao prefeito de Mossoró.
8 – Considerando esse percentual e o valor total dos pagamentos executados pela Prefeitura de Mossoró, beneficiando a DisMed entre 2022 e 2025, Allyson Bezerra pode ter recebido mais de R$ 2,2 milhões em propina da empresa investigada.
9 – A Polícia Federal descobriu grande volume de aquisição de medicamentos utilizados no tratamento da hipertensão arterial. Só no exercício de 2025, a gestão Allyson Bezerra adquiriu aproximadamente 8 milhões de comprimidos de medicamentos para hipertensão, junto às empresas investigadas.
10 – A PF já constatou, via relatório do COAF, movimentação de R$R 146 milhões e saques, em espécie, que totalizam mais de R$ 12 milhões.
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