Domingo, 06 de setembro de 2026

Postado às 11h15 | 06 set 2026 | redação Coluna Ney Lopes: A próxima Independência do Brasil começa nas mãos do eleitor

Crédito da foto: Reprodução Começa pelo voto

Coluna Ney Lopes / Jornal de Fato

Na segunda-feira, o Brasil vai às ruas para celebrar o 7 de setembro. O Hino Nacional será ouvido e lembrado o grito da Independência de 1822. Talvez seja também o momento de uma indagação: qual independência desejamos construir para o século XXI? A resposta passa pela capacidade de produzir conhecimento, transformar riquezas em bem-estar, dominar setores estratégicos da economia, formar os próprios talentos e avançar na inovação tecnológica sem depender excessivamente do capital, da tecnologia e das decisões de outros países.

 

Começa pelo voto

Essa Independência começa pelo voto livre. É o instrumento pelo qual o cidadão constrói um projeto de Brasil. Dispomos em abundância de água, terras, biodiversidade, petróleo, gás, energia renovável, agricultura competitiva e minerais estratégicos. Possuímos universidades, pesquisadores, empresas, talentos e enorme mercado consumidor.

 

Exemplos de países

Cabe observar, que não basta possuir recursos; é preciso convertê-los em desenvolvimento. Países que compreenderam essa lógica oferecem exemplos importantes. A Austrália combina sua força mineral com ciência, tecnologia e inovação. O Chile avança da simples exploração do cobre para uma indústria nacional de maior valor agregado. A Indonésia domina o refino global do níquel, mineral essencial para as baterias de veículos elétricos, porque há anos proibiu a exportação do minério bruto e exigiu que o processamento ocorresse em território indonésio, antes de sua comercialização internacional.

Somos hoje o segundo maior detentor de reservas de terras raras do planeta, com cerca de 23% do total mundial. O alerta é que essa riqueza, por si só, não garantirá prosperidade. Se nos limitarmos a exportar matérias-primas, os maiores benefícios econômicos continuarão sendo apropriados por outros países. Não precisamos copiar ninguém. Precisamos apenas produzir, inovar e agregar valor ao que o mundo verdadeiramente valoriza.

 

O amanhã está na urna

A nova independência brasileira não será conquistada por espadas, cavalos ou às margens de um rio. Ela dependerá de escolhas conscientes. Hoje, o destino do país é decidido menos nos campos de batalha e mais nas decisões tomadas nas eleições. O eleitor que não reconhece competência pessoal e experiência política no candidato em que irá votar acaba permitindo que outros decidam o seu futuro. Cada eleitor terá nas mãos uma parte do destino desta grande nação, com a responsabilidade de ajudar a construir um Brasil mais forte, mais próspero e verdadeiramente soberano

 

Memória, história, hoje

A crônica política nacional registrou, no último dia 2, uma cena que merece entrar para o anedotário do Congresso. Na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o senador Rogério Marinho, líder da oposição, argumentava contra a aprovação da proposta que reduz a jornada de trabalho. O presidente da sessão, senador Otto Alencar, considerou que, diante da delicadeza da matéria em votação, Rogério estava “muito nervoso” e, num gesto de preocupação com a saúde emocional dos colegas, ofereceu-lhe duas alternativas: Rivotril ou Lexotan. A provocação tinha endereço certo. A insinuação era de que o senador potiguar estaria apreensivo com eventuais perdas eleitorais na próxima eleição. Rogério não se abalou. Respirou — sem tranquilizante — e concluiu sua intervenção.

A propósito do temor de perder votos por posições políticas assumidas, lembro uma história verdadeira, cujos personagens prefiro não identificar. Era época de outra batalha parlamentar, dessas em que a política costuma cobrar do homem público a diferença entre convicção e sobrevivência. Quando ainda era deputado federal, esse colega viu chegar ao plenário uma proposta de emenda constitucional que prorrogava o mandato do então presidente José Sarney, que atravessava um período de profunda impopularidade, e a opinião pública, quase em uníssono, manifestava-se contra a prorrogação.

O deputado, depois de algumas noites maldormidas, procurou um velho e fiel correligionário no interior do Estado. Era líder político e prefeito, homem acostumado a traduzir a política para a linguagem que realmente importa nas urnas. Contou-lhe sua angústia. Devia muitas atenções ao presidente Sarney e não encontrava coragem para votar contra ele. Mas havia um problema ainda maior.

— Amigo, com que cara eu vou chegar ao seu município se votar “sim” para o Presidente?

O prefeito ouviu tudo sem alterar a expressão. Pensou por alguns segundos e deu o diagnóstico, curto e certeiro: “Deputado, o senhor pode votar para Sarney ser bispo, cardeal ou qualquer outra coisa. O que o senhor não pode mesmo é chegar aqui liso”.

O deputado caiu na risada. E votou a favor de Sarney. Na eleição seguinte, para completar a ironia, foi o mais votado. A história talvez explique mais do que muitos tratados de ciência política.  A memória do povo é assim, infelizmente. Como ensinou o prefeito, na política pode-se chegar a muitos lugares.

Só não convém chegar liso.

 

Registro fúnebre

O Estado perdeu um empresário, líder classista e cidadão consciente, o engenheiro Bira Rocha, que faleceu nesta sexta-feira, 4. Deixou marcas de ações na iniciativa privada e no serviço público, no qual militou anos como Secretário de Estado. Condolências aos familiares!

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