Sábado, 19 de setembro de 2026

Postado às 15h15 | 19 set 2026 | redação Allyson, Diego da Sama, ameaças e R$ 192 milhões comprometidos pela saúde de Mossoró

Reportagem investigativa do jornalista Dinarte Assunção revela que testemunha que apurava as contas da gestão Allyson diz à Polícia Federal que se sentiu ameaçada por diretor da SAMA, empresa com R$ 192 milhões comprometidos pela saúde de Mossoró

Crédito da foto: Reprodução Allyson Bezerra e Diego Dantas: R$ 192 milhões empenhados da saúde de Mossoró

A reportagem é assinada pelo jornalista Dinarte Assunção, no seu Blog do Dina:

Em 16 de agosto de 2024, um consultor em gestão pública foi recebido no escritório da SAMA, em Mossoró. Quem o esperava era Francisco Diego Costa Dantas, diretor da empresa. Um mês depois, na Superintendência da Polícia Federal no Rio Grande do Norte, o consultor descreveu a conversa em termo de depoimento, como testemunha compromissada. Segundo ele, Diego disse que já tinha a lista de todos os municípios onde o consultor mantinha contrato. E que era “muito arriscado” fazer aquele tipo de relatório, “perante pessoas tão poderosas que podem agir, inclusive, sobre a vida de muitas pessoas”.

Segundo o termo, o relatório apontava indícios de potencial fraude nos relatórios de gestão fiscal da Prefeitura de Mossoró. A empresa em cujo escritório a conversa aconteceu tem R$ 192 milhões comprometidos pelo Fundo Municipal de Saúde da cidade desde 2021 (primeiro ano da gestão do ex-prefeito Allyson Bezerra).

Nenhuma das duas coisas é crime por si. Inexigibilidade de licitação é modalidade prevista em lei, para quando a competição é inviável. E depoimento de testemunha é versão de uma parte: não há, nos documentos a que o Blog do Dina teve acesso, manifestação de Diego Dantas sobre o episódio, nem indicação de procedimento aberto contra ele.

Como ele chegou até ali

A história começa um ano antes daquela reunião, e do outro lado do balcão. Em 2023, o mesmo consultor procurou a Prefeitura de Mossoró para vender serviço, não para fiscalizá-la: queria montar a escola de governo do município. A reunião, conta o depoimento, foi articulada pelo então superintendente executivo de Governo da Caixa Econômica Federal no Rio Grande do Norte, Lamarck Mangueira, porque o consultor trabalhava com o banco em estratégias de investimento para prefeituras.

Quem o recebeu foi o então secretário de Planejamento. A resposta, segundo o termo, foi que a equipe montada pelo prefeito Allyson Bezerra era “altamente qualificada, totalmente autossuficiente em conhecimentos e capacidade técnica” e que não precisava de “consultores forasteiros”.

Advogado e homem de confiança de Allyson desde 2020, Kadson foi nomeado secretário de Planejamento em 6 de janeiro de 2023, pela Portaria nº 6. Em abril de 2024, o jornalista Bruno Barreto, do Blog do Barreto, revelou que ele havia sido condenado pela 12ª Vara Federal de Pau dos Ferros por falsidade ideológica e uso de documento público materialmente falso, a dois anos de prisão e dez dias-multa. O trânsito em julgado se deu em 17 de janeiro de 2023 — onze dias depois de Allyson assinar a portaria que o levou ao Planejamento. O Blog do Dina não teve acesso à peça judicial: a condenação é reproduzida aqui como a revelou o Blog do Barreto.

Barreto também mostrou que, no início de 2024, Kadson acumulou a Secretaria de Cultura e chegou a receber, somadas as duas pastas, mais do que o salário do prefeito. Foi exonerado do Planejamento em 19 de abril de 2024, pela Portaria nº 222 — que registra a saída como tendo sido a pedido. Neste ano, Kadson trabalha na campanha de Allyson ao governo do estado.

Era esse o secretário de Planejamento que classificava a equipe como autossuficiente. Não há nos documentos consultados nada que ligue Kadson à produção dos relatórios fiscais — a aproximação entre as duas coisas é da reportagem, e vale como cronologia, não como imputação.

Depois daquela reunião, diz o depoimento, ele não teve mais contato com a Prefeitura até a eleição.

 

As quatro denúncias

Antes de ser chamado ao escritório da SAMA, o consultor já havia levado o que encontrou a quatro órgãos de controle. O depoimento registra que, “visando evitar risco de ato de prevaricação”, ele encaminhou o relatório ao Tribunal de Contas do Estado, ao Tribunal de Contas da União, à Controladoria-Geral da União e à própria Polícia Federal.

Isso foi em 2024. O que cada um dos quatro fez com o material é pergunta em aberto, e o Blog do Dina protocolará pedido de acesso à informação nos quatro para saber se as denúncias foram autuadas e em que estado se encontram.

Documento

O termo, na ordem em que foi escrito

Trechos do depoimento prestado à Polícia Federal em 17 de setembro de 2024. Grifos do Blog do Dina.

Cabeçalho do termo de depoimento da Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio Grande do Norte

Aos dezessete (17) dia(s) do mês de setembro (09) do ano de dois mil e vinte e quatro (2024), na Superintendência Regional da Polícia Federal, em Cartório […] Compromissado na forma da lei e inquirido pela Autoridade Policial sobre os fatos em apuração, na condição de TESTEMUNHA, às perguntas feitas, RESPONDEU:

quem fala

QUE possui escritório de consultoria em planejamento e gestão pública, com atuação em diversos municípios do Rio Grande do Norte e que atua prestando assessoria em planejamento e planos de governo de algumas campanhas para Prefeito Municipal;

2023 · a porta fechada

QUE em 2023 teve uma reunião com o então Secretário de Planejamento de Mossoró, o Sr. KADSON EDUARDO, para apresentar uma proposta de consultoria na montagem e estruturação da futura escola de governo de Mossoró, pela experiência anterior que teve proveniente do Ministério Público;

QUE essa reunião foi articulada pelo então Superintendente de Governo da Caixa Econômica Federal, LAMARCK MANGUEIRA, tendo em vista o depoente ter atuação em conjunto com a presente Instituição Financeira em estratégias de CAPEX para Prefeituras;

QUE o então Secretário KADSON demonstrou rejeição a proposta, argumentando que a equipe formada pelo Prefeito ALLYSON BEZERRA era altamente qualificada, totalmente autossuficiente em conhecimentos e capacidade técnica e que não precisara de consultores forasteiros;

abril de 2024 · o relatório

QUE em abril de 2024 foi apresentado à coordenação de campanha do candidato a Prefeito de Mossoró GENIVAN VALE, iniciando a prestação de assessoria em planejamento e análise de informações;

QUE constatou em análise de informações a existência de potencial fraude fiscal na emissão de relatórios de gestão fiscal pela Prefeitura de Mossoró nos anos de 2021 a 2024, impactando diretamente nos indicadores obrigatórios para obtenção de Operações de Crédito;

2024 · as quatro denúncias

QUE ao constatar estes dados e estruturar em relatório, visando evitar risco de ato de prevaricação, encaminhou tais informações ao TCE, TCU, CGU e PF, para análise de denúncia;

QUE a campanha do candidato a Prefeito de Mossoró GENIVAN VALE realizou a divulgação pública dos dados deste relatório com indícios de fraude fiscal praticados por ALLYSON BEZERRA;

16 de agosto de 2024 · o escritório

QUE o depoente foi contatado por advogado que representa causas da Prefeitura de TIBAU, o Sr. […], para saber os motivos da exposição deste relatório e se haveria possibilidades de uma conversa com uma pessoa muito amiga de ALLYSON BEZERRA;

QUE no mesmo dia deste contato, ocorrido em 16/08/2024, foi convidado e participou de uma reunião com o Sr. DIEGO DANTAS, no escritório da SAMA, em Mossoró;

QUE o Sr. DIEGO DANTAS afirmou que já conhecia meu histórico e já tinha a lista de todos os municípios que o depoente possuía como cliente, podendo fazer possíveis conversas com Prefeitos para o fortalecimento ou a possível revisão da necessidade de manutenção do contrato que possuía;

QUE o Sr. DIEGO DANTAS alertou que era muito arriscado que o depoente fizesse este tipo de relatório, perante pessoas tão poderosas que podem agir, inclusive, sobre a vida de muitas pessoas;

o fecho

QUE o depoente se sentiu ameaçado, mas manteve todas as denúncias encaminhadas ativas. E mais não disse nem lhe foi perguntado.

Fonte: Termo de Depoimento, Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio Grande do Norte, 17 de setembro de 2024, a que o Blog do Dina teve acesso. A qualificação e as assinaturas foram suprimidas: a testemunha relatou ter se sentido ameaçada, e sua identificação está preservada. Também está suprimido o nome do advogado citado, que não é alvo desta reportagem. As reticências entre colchetes marcam supressões; o restante é literal.

 

A reunião de 16 de agosto

O depoimento à Polícia Federal foi prestado em 17 de setembro de 2024, perante o delegado Cláudio Ribeiro Santana. Nele, o consultor relata que atua em planejamento e gestão pública em municípios do Rio Grande do Norte. Em abril daquele ano, passou a prestar assessoria à campanha de Genivan Vale, adversário de Allyson em Mossoró.

Foi nesse trabalho, segundo o termo, que identificou o que descreveu como “potencial fraude fiscal na emissão de relatórios de gestão fiscal pela Prefeitura de Mossoró nos anos de 2021 a 2024, impactando diretamente nos indicadores obrigatórios para obtenção de operações de crédito”. Diz ter encaminhado o material ao Tribunal de Contas do Estado, ao Tribunal de Contas da União, à Controladoria-Geral da União e à própria Polícia Federal. A campanha de Genivan divulgou os dados.

Depois da divulgação, conta o depoimento, um advogado que atua para a Prefeitura de Tibau o procurou. Queria saber por que o relatório tinha vindo a público, e se havia possibilidade de uma conversa com “uma pessoa muito amiga de Allyson Bezerra”. No mesmo dia, 16 de agosto de 2024, o consultor foi ao escritório da SAMA.

“QUE o Sr. DIEGO DANTAS afirmou que já conhecia meu histórico e já tinha a lista de todos os municípios que o depoente possuía como cliente, podendo fazer possíveis conversas com Prefeitos para o fortalecimento ou a possível revisão da necessidade de manutenção do contrato que possuía; QUE o Sr. DIEGO DANTAS alertou que era muito arriscado que o depoente fizesse este tipo de relatório, perante pessoas tão poderosas que podem agir, inclusive, sobre a vida de muitas pessoas; QUE o depoente se sentiu ameaçado, mas manteve todas as denúncias encaminhadas ativas.”

O termo registra a versão da testemunha. O depoimento diz que ela foi inquirida “sobre os fatos em apuração”, sem especificar qual procedimento.

 

Quem é Francisco Diego Costa Dantas

Falta dizer quem recebeu o consultor naquele escritório, e o que a empresa dele tem com a Prefeitura de Mossoró.

Médico, CRM-RN 5803 — número com que ele assina, como CEO, os memorandos da própria SAMA. Nas fichas da Receita Federal aparece à frente de quatro empresas sediadas em Mossoró:

Empresa CNPJ Ramo Posição
SAMA S.A. 14.775.280/0001-14 Serviços médicos e hospitalares Diretor desde 21/02/2013
Oeste Verde 14.032.202/0001-20 Pré-moldados e soluções ambientais Administrador desde 12/09/2023
Mar de Java Participações 42.281.593/0001-51 Holding Administrador desde 10/06/2021
F D Costa Dantas 51.203.527/0001-54 Apoio à gestão de saúde Sócio-administrador único

Uma ressalva que os documentos impõem. A SAMA é sociedade anônima fechada, e o quadro que a Receita publica lista administradores, não acionistas. Diego consta como diretor. Quem são os donos da empresa não é informação pública.

Ele é ainda sócio da P E D Empreendimentos e Serviços, a Pé Direito, empresa de engenharia com capital declarado de R$ 12 milhões.

A holding Mar de Java tem uma composição incomum, detalhada na certidão de inteiro teor da Junta Comercial do Rio Grande do Norte. Num ato assinado em dezembro de 2022 e registrado em março de 2023, Diego e a mulher, Priscilla Grace Costa Bezerra Dantas, se retiraram da empresa e doaram as quotas aos quatro filhos do casal, em partes iguais. Os quatro são descritos no documento como “menor e absolutamente incapaz”, representados pelos genitores. Todos seguem menores de idade.

A saída, porém, é menos completa do que parece. Na certidão, a doação vem “com gravame de usufruto vitalício em favor dos cedentes”, mais cláusulas de inalienabilidade e incomunicabilidade. E o parágrafo sétimo é explícito: “os sócios somente assumem as quotas da empresa com o falecimento dos dois usufrutuários vitalícios”. Na prática, o casal deixou o quadro societário e manteve o proveito das quotas enquanto viver. A administração, diz a cláusula terceira, passou a ser exercida “pelo não sócio Francisco Diego Costa Dantas”.

 

A curva

Antes de Allyson Bezerra, a SAMA já atendia Mossoró, e em volume parecido: foram R$ 7,7 milhões em 2016 e R$ 5,4 milhões em 2020. O salto vem em 2022, quando o valor anual quintuplica. Os números são de empenhos registrados pelo Fundo Municipal de Saúde no sistema do Tribunal de Contas do Estado. O Blog do Dina os levantou na base de dados abertos do TCE-RN neste sábado (19):

Ano Empenhado
2021 R$ 5.061.195
2022 R$ 25.296.292
2023 R$ 32.590.605
2024 R$ 40.411.248
2025 R$ 50.275.408
2026 (até 6 de julho) R$ 38.520.371
Total R$ 192.155.120

Blog do Dina

A SAMA e a saúde de Mossoró

O que o município comprometeu à empresa, ano a ano, e como o caso se encadeia.

O dinheiroA linha do tempo

Empenhado — verba separada no orçamento e comprometida com a empresa

2021

R$ 5,1 mi

2022

R$ 25,3 mi

2023

R$ 32,6 mi

2024

R$ 40,4 mi

2025

R$ 50,3 mi

2026 (até 6 de julho)

R$ 38,5 mi

Total empenhado R$ 192.155.120

Empenho é a verba separada no orçamento e comprometida com a empresa — a primeira das três etapas do gasto público, antes da liquidação e do pagamento.

Fontes: empenhos do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró no TCE-RN (API de dados abertos, consulta de 19/09/2026); extratos dos aditivos e portarias no Diário Oficial de Mossoró; termo de depoimento à Polícia Federal de 17/09/2024. Elaboração: Blog do Dina.

Empenho é a primeira das três etapas do gasto público: o município separa a verba no orçamento e assume a obrigação. Depois vêm a liquidação, quando a nota é conferida, e o pagamento. O que a tabela mostra, portanto, é o quanto Mossoró comprometeu com a empresa — não o quanto já saiu do caixa. O Blog do Dina consultou também a base de liquidações do TCE, mas ela devolve registros repetidos e, em 2021, valores liquidados maiores que o próprio empenho que deveriam quitar. Por não passar na conferência, esses números ficam de fora desta reportagem.

Entre 2021 e 2025, o valor anual empenhado foi multiplicado por quase dez, quase tudo depois do salto de 2022. Parte da curva, porém, não é gasto novo: R$ 4,6 milhões de 2023, R$ 1,9 milhão de 2022 e R$ 315 mil de 2021 são reconhecimento de dívida de exercício anterior. De 2024 em diante, todo o valor é empenho corrente.

O capital social declarado da SAMA hoje é de R$ 1 milhão. Em maio deste ano era o dobro.

 

Um processo, cinco anos e meio

Há um detalhe que explica a curva. A partir de 2022, os empenhos param de se espalhar por vários processos e passam a sair quase todos de um só: o Processo 404/2021. Em 2022, ele responde por R$ 23,9 milhões dos R$ 25,3 milhões do ano. De 2023 em diante, responde por tudo — cada real dos R$ 161,8 milhões empenhados de janeiro de 2023 a julho de 2026. O último empenho localizado tem data de 6 de julho deste ano.

Só que o 404/2021 é o número do processo de despesa, aquele que identifica o empenho na contabilidade. Ele não diz por qual modalidade a empresa foi contratada. O instrumento que o Diário Oficial de Mossoró registra é outro, e mais antigo. A contratação da SAMA pelo Fundo Municipal de Saúde se deu por inexigibilidade, no Processo nº 1/2021, que gerou o Contrato nº 09/2021-SMS, de 22 de fevereiro de 2021.

O que o Diário Oficial de Mossoró registra, desde que passou a existir em janeiro de 2023, é uma sucessão de renovações do mesmo contrato. O Blog do Dina localizou os aditivos um a um:

Aditivo Objeto Valor Vigência
02/2023 prorrogação por 12 meses R$ 27.373.658,40 22/02/2023 a 22/02/2024
03/2024 renovação por 12 meses R$ 27.373.658,40 22/02/2024 a 22/02/2025
04/2024 acréscimo de 25% ao valor do contrato R$ 6.843.414,60 não altera prazo
05/2025 renovação por 12 meses R$ 34.217.073,00 22/02/2025 a 22/02/2026
06/2026 renovação por 12 meses R$ 34.217.073,00 22/02/2026 a 22/02/2027

O extrato do quinto aditivo trazia a vigência errada, até maio de 2026, e a Prefeitura só publicou a retificação um ano depois, em fevereiro deste ano.

O acréscimo de 25% foi assinado em 30 de dezembro de 2024, no penúltimo dia do exercício. É ele que explica o salto do teto: os R$ 27,4 milhões viraram R$ 34,2 milhões. A vigência atual vai até 22 de fevereiro de 2027.

Há uma diferença que a reportagem não consegue fechar. O contrato autoriza R$ 34,2 milhões por ano. No ano de 2025, o Fundo de Saúde empenhou R$ 50,3 milhões à empresa — R$ 16,1 milhões a mais. A comparação, é preciso dizer, não é exata: o contrato corre de fevereiro a fevereiro, o orçamento vai de janeiro a dezembro, e empenho não é execução de contrato.

Os dezoito empenhos de 2025 descrevem, todos, o mesmo serviço previsto no contrato: clínica médica, pediatria, emergência e atendimento ambulatorial. Um só aponta outra origem para o dinheiro, uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão com incremento do Piso de Atenção Primária. O que ampara a diferença é pergunta para a Prefeitura.

 

Os 21.963 metros quadrados da Barrinha

A segunda empresa em que Diego é administrador não vende serviço à Prefeitura. Recebeu dela.

O Blog do Dina varreu os 30 órgãos municipais de Mossoró registrados no Tribunal de Contas do Estado, de 2021 a 2026, atrás dos sete CNPJs ligados a ele. A Oeste Verde não aparece em um único empenho. O que ela recebeu da Prefeitura não foi dinheiro. Foi terra.

Em 2023, Allyson Bezerra sancionou duas leis doando terrenos públicos à Oeste Verde, no Distrito Industrial II, na Barrinha. A Lei 4.052, de 25 de agosto, destinou o Lote 17, com 12.007,60 m². Em 21 de dezembro, a Lei 4.099 destinou o Lote 18, com 9.955,93 m². Somados, 21.963,53 metros quadrados.

As doações não são incondicionais. As duas leis fixam contrapartidas: geração mínima de empregos diretos e investimento da empresa no terreno, com prazo para comprovar e reversão do imóvel ao município se as condições não forem cumpridas. A Lei 4.052 exige vinte empregos e R$ 6.759.325,00. As leis também fixam o valor venal dos lotes: R$ 90.057,00 o primeiro, R$ 74.662,50 o segundo.

A Oeste Verde não foi a única contemplada. As mesmas edições do Diário Oficial trazem doações de lotes vizinhos, no mesmo Distrito Industrial e pelo mesmo programa municipal de incentivo, a outras empresas. Se as contrapartidas foram cumpridas e fiscalizadas, é pergunta em aberto.

A sequência dos atos societários acompanha o calendário das doações. Em 29 de março de 2023, a holding Mar de Java entrou como sócia da Oeste Verde. Cinco meses depois saiu a primeira doação. Duas semanas e meia mais tarde, Diego assumiu pessoalmente a administração da empresa. No fim do ano, saiu a segunda.

 

O que não é só de Mossoró

Um dado impede que esta história seja lida como fenômeno de uma prefeitura só. O Blog do Dina varreu os 187 órgãos de saúde jurisdicionados ao TCE-RN. Entre 2021 e 2025, a SAMA aparece com empenhos de 37 órgãos públicos do estado, num total de R$ 428,9 milhões. Mossoró é o maior cliente municipal, com pouco mais de um terço. O governo do estado, pela Secretaria de Saúde Pública, responde por outro quarto.

Já o contrato estadual mais antigo é de 2017, assinado na gestão Robinson Faria, e chegou em 2025 ao décimo segundo termo aditivo. Parte dessas prorrogações, registram as próprias justificativas dos empenhos, cumpriu decisão judicial. A Secretaria de Saúde assinou contratos novos com a empresa em 2023, já na gestão Fátima Bezerra, e as justificativas descrevem plantões efetivamente prestados em hospitais regionais nomeados. Ou seja: o modelo da SAMA não nasceu com Allyson, nem terminou com ele. Allyson renunciou à Prefeitura em março de 2026 para disputar o governo do estado, e os R$ 38,5 milhões empenhados neste ano correram já sob o prefeito Marcos Medeiros.

Procurado pelo Blog do Dina neste sábado (19), por mensagem, Francisco Diego Costa Dantas não havia respondido até a publicação. Foram oito perguntas sobre a reunião de 16 de agosto de 2024. O espaço segue aberto, e esta reportagem será atualizada com a íntegra de qualquer resposta que chegue.

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