Sábado, 14 de março de 2026

Postado às 09h00 | 13 Mar 2026 | redação Operação Mederi: Sócios da DisMed trataram de pagamento com diretora nomeada por Allyson

Documentos da Operação Mederi mostram que Poliana Rezende foi nomeada no mesmo dia em que definiram propina para esquema que tem o prefeito Allyson Bezerra no "topo", segundo a PF. A operação desmantelou esquema de desvio de recursos da saúde

Crédito da foto: Reprodução Prefeito Allyson Bezerra é investigado no âmbito da Operação Mederi

Da Redação do Jornal de Fato

Documentos da Operação Mederi, aos quais o jornalista Dinarte Assunção teve acesso, mostram que Poliana Rezende Dantas, diretora financeira I da Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró entre 2024 e 2025, foi citada em pelo menos nove interceptações ambientais realizadas entre maio e junho de 2025 na sede da empresa DisMed Distribuidora de Medicamentos.

A operação foi detonada pela Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) para desmantelar um esquema de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró. No dia 27 de janeiro, o prefeito Allyson Bezerra (União Brasil), que é colocado pela PF no “topo” do grupo criminoso, foi alvo de mandados de busca e apreensão. A operação também alcançou a secretária de Saúde, Morgana Dantas, o ex-secretário de Saúde, Almir Mariano, entre outros investigados.

As informações divulgadas pelo Blog do Dina nesta quinta-feira, 12, são parte das investigações a que o jornalista teve acesso com exclusividade.

Segundo decisão do desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do TRF-5, Poliana Rezende ocupa a 5ª posição numa estrutura de nove pessoas — descrita como “contato de confiança dentro da Secretaria Municipal de Saúde”, cuja participação, conforme a decisão, seria indispensável para a execução do esquema investigado.

A reportagem do Blog do Dina noticia que “Poliana foi nomeada pelo prefeito Allyson Bezerra por portaria de 31 de janeiro de 2025. Vinte e três dias antes da nomeação, os documentos do TRF-5 registram trocas de mensagens entre ela e Oseas Monthalggan Fernandes da Costa, um dos sócios da DisMed e um dos principais operadores do esquema investigado.”

A defesa dela foi procurada pelo Blog do Dina para se manifestar e afirmou que, em razão do processo estar em sigilo, não tinha como contribuir com os esclarecimentos solicitados pela reportagem.

 

Mensagens

Os autos obtidos pelo Blog do Dina registram: “verificou-se trocas de mensagens entre Poliana e o investigado Oseas Montalgghan, que foram realizadas nos dias 07, 08, 09, 14, 15, 16 e 17 de janeiro de 2025.”

São sete dias de mensagens com o sócio da distribuidora de medicamentos. O conteúdo das mensagens não foi transcrito nos documentos disponíveis ao Blog do Dina — é uma das lacunas da apuração. Vinte e três dias após a última mensagem registrada, Poliana estava nomeada diretora financeira da Secretaria Municipal de Saúde.

 

“A Poliana dá carona”

A primeira escuta ambiental em que Poliana Rezende Dantas é citada pelo nome é de 9 de maio de 2025. Sidney — representante comercial que atuava como intermediário da DisMed — comunica a Oseas que Mossoró havia recebido um ofício licitatório e que ele havia entregado o documento à Diretora Financeira:

“MOSSORÓ recebeu o ofício, viu, hoje! POLIANA, pra POLIANA, dá CARONA. Ela disse que segunda-feira respondia.”

OSEAS: “Show de bola!”

Segundo investigadores, a “carona” no contexto da investigação se refere à adesão a atas de registro de preços de outros entes, mecanismo pelo qual Mossoró poderia contratar a DISMED sem processo licitatório próprio. O ofício era o passo formal para acionar esse mecanismo — e passava pela mesa de Poliana.

Quatro dias depois, em 13 de maio de 2025, as escutas registraram Oseas planejando uma reunião particular com a diretora.

“Eu falei com ELA (POLIANA) ontem: amanhã quando você tiver sozinha, você ligue pra mim que eu quero falar um particular com você. Se ela não ligar hoje, aí amanhã eu vou lá. Eu vou na hora do almoço que é horário de [inaudível] é reduzida. Doze hora eu queria tá lá. Aí eu vou, vou começar conversando com ela pra mim ver até onde vai dar pra ir.”

Investigadores apontam que a preferência pelo horário do almoço e pela condição de “estar sozinha” indica intenção de contato fora do ambiente de trabalho formal. A expressão “ver até onde vai dar pra ir” é analisada, segundo os documentos, no contexto do esforço para ampliar o volume das Ordens de Compra de Mossoró.

No mesmo dia, a interceptação registra Nenen — outro integrante do grupo — instruindo Oseas sobre como convencer Poliana a aumentar o valor mensal das contratações. A referência é o volume de medicamentos de municípios menores:

“Agora você tem que dizer, olhe POLIANA… você tem que dizer a ela o seguinte: olhe, POLIANA, eu vou dá o exemplo de uma cidade como JOSÉ DA PENHA, aí você diz, JOSÉ DA PENHA consome cem mil por mês.”

OSEAS: “Não, Governador consome cem mil, cento e cinquenta!”

NENEN: “Aí como é que MOSSORÓ em um mês só consome trezentos mil? Não tem lógica não, porra! MOSSORÓ era no mínimo ali era quinhentos mil conto no mês!”

O argumento era simples: se municípios menores consomem proporcionalmente mais, Mossoró deveria elevar suas OCs de R$ 300.000,00 para pelo menos R$ 500.000,00 mensais. A instrução era direcionada a ser apresentada diretamente a Poliana.


O Modelo em Word

Em 15 de maio de 2025, Sidney relata a Oseas Monthalggan os detalhes de uma reunião presencial que teve com a diretora:

“E eu fui, eu tive com POLIANA e ela me mandou, Sidney eu recebi o ofício, mas faça o seguinte: peça só pra ele fazer essa notificação, porque pra cada empresa ela pediu um ofício separado. Ela me deu até o bicho no Word do sistema lá, eles tão colocando…”

Segundo investigadores, Poliana forneceu ao representante da DISMED um modelo oficial em formato Word — extraído do sistema da Prefeitura — para padronizar a documentação que a distribuidora precisava apresentar. A PF indica que esse dado reforça o papel de facilitadora atribuído a ela na estrutura investigada.

O episódio mais direto nas escutas envolve uma nota fiscal específica. Em 2 de junho de 2025, Moabe Zacarias Soares — outro sócio da DISMED — liga para o número de Poliana:

“POLIANA, boa tarde! Ei, duas coisas eu vou lhe perturbar: Eu levei muito cedo… de manhã no meio da rua, lá perto do Itaú. Eu buzinei e você não viu não. É… dia 28 foi paga uma nota de R$ 231.000,00. Eu queria que você visse pra mim pra gente… dar baixa. E outra coisa: É, deu certo você responder aquela… de SÃO MIGUEL?…”

O detalhe do buzinado “no meio da rua, perto do Itaú” indica que Poliana e Moabe se conheciam além do ambiente institucional. O pedido central: localizar no sistema da prefeitura a nota de R$ 231.000,00 paga em 28 de abril de 2025 e dar baixa na contabilidade.

Minutos depois, em outra escuta do mesmo dia, Oseas comenta sobre a mesma nota: “Essa nota aqui só tem COMISSÃO de 15 mil, de MOSSORÓ.” Segundo investigadores, R$ 15.000,00 corresponderia à comissão/propina embutida no pagamento.

Em 29 de maio de 2025, dois registros indicam que a relação com Poliana atravessava um momento de tensão. No arquivo, Oseas tenta ligar para ela sem sucesso e interpreta a dificuldade:

SIDNEY: “Ei! Vou lá em POLIANA agora!”

OSEAS: “Deixe eu ligar: POLIANA! POLIANA!” [tenta e não consegue falar]

OSEAS: “…Eu acho que está desconfiada…”

OSEAS: “ARROCHA ESSA DAÍ!”

SIDNEY: “Essa o que?”

OSEAS: “Essa, essa LICITAÇÃO!”

Poucos minutos depois, a discussão gira em torno da necessidade de uma autorização formal:

OSEAS: “É! Mas eu perguntei: POLIANA precisa dar o aval em cima?”

SIDNEY: “É, porque assim, pra não deixar que a coisa cresça em relação a esse cara aí!”

Investigadores entendem que o “aval” se referia a uma autorização formal de Poliana sobre alguma etapa do processo licitatório. Havia um secretário — identificado nos documentos como “esse cara” — que estava criando obstáculos à tramitação.

 

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